Evaldo Mocarzel lança dois filmes sobre a premiada peça 'BR3'

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - Não foram muitos os espectadores que tiveram a oportunidade de assistir a BR3, montagem do Teatro da Vertigem concebida para ser apresentada no Rio Tietê, em São Paulo, que também foi encenada na Baía da Guanabara, durante o Riocenacontemporênea de 2007. Além da logística complicadíssima, o espetáculo teve sua carreira abortada pela inviabilidade econômica.

O dono da embarcação aumentou o preço quando a encenação começou a repercutir na mídia, impedindo, assim, a continuidade da temporada explica o documentarista Evaldo Mocarzel.

Grande vencedora do Prêmio Shell de 2007, a peça poderá ser vista por quem não vivenciou a experiência de assistir à peça a bordo de uma embarcação adaptada com poltronas teatrais graças a Mocarzel, que eternizou o espetáculo em de dois filmes, com estreia prevista para o dia 4 de dezembro. Num deles fornece um registro do trabalho, captado por meio de oito câmeras. No outro, recupera o processo vivenciado em Brasilândia, bairro da periferia paulistana, Brasília, capital do país, e Brasiléia, cidade do interior do Acre através de entrevistas com os atores e de flagrantes de imagens do rio e de montagem e desmontagem de todo o aparato cenográfico. Ambas fazem parte da programação da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo.

Um novo 'Rei da vela'

Fui ver BR3 com olhar de cineasta. Senti que estava diante de um novo O rei da vela ou Macunaíma, que iria se perder se não fosse filmado elogia Mocarzel, mencionando, respectivamente, as encenações emblemáticas de José Celso Martinez Corrêa e de Antunes Filho para os textos de Oswald e Mario de Andrade. A peça é um híbrido. É teatro, mas feito em locação como um filme. Também se propõe a ser uma intervenção urbana e tem um pé nas artes plásticas.

BR3 não marcou o início do fascínio de Mocarzel pelo Teatro da Vertigem.

Como editor do Caderno 2 (do jornal O Estado de São Paulo), dei seis capas para O livro de Jó. Sabia que era o espetáculo da década avalia o diretor, que havia registrado a instalação A última palavra é a penúltima, realizada pelo Vertigem, o grupo peruano Lot e o mineiro Zikizira.

Agora, Evaldo Mocarzel passa a ocupar o lugar que foi de Sérgio de Carvalho (em O paraíso perdido), Luís Alberto de Abreu (O livro de Jó), Fernando Bonassi (Apocalipse 1,11) e Bernardo Carvalho (BR3) ao assumir a dramaturgia de Kastelo, próximo trabalho da companhia, que partiu de uma livre adaptação de O castelo, de Franz Kafka.

O grupo me convidou há duas semanas para entrar na dramaturgia. Já estava fazendo imagens do processo, realizando experimentações visuais a partir da fragmentação dos corpos dos atores.

Na encenação, que será assinada por Eliana Monteiro, assistente de direção de BR3, e supervisionada por Antonio Araujo, os atores ficarão em andaimes do lado de fora do terceiro andar do Sesc Paulista e os espectadores assistirão de dentro do prédio. O Teatro da Vertigem perpetua, assim, sua pesquisa relacionada a espaços não-convencionais depois de espetáculos ambientados em igrejas, hospitais, presídios e rios.

A determinação de Evaldo Mocarzel em documentar trabalhos inquietantes não se restringe ao Vertigem. Afinal, sua ligação com o teatro é antiga o cineasta estabeleceu parceria com Antunes Filho, chegando a pertencer ao Círculo de Dramaturgia do Centro de Pesquisa Teatral (CPT). Além do grupo de Antonio Araujo, Mocarzel está envolvido com filmes gerados a partir da observação de outros processos. Um deles é Os Satyros, capitaneado por Rodolfo García Vázquez, que revitalizou a outrora perigosa região da Praça Roosevelt, Centro de São Paulo.

Fiz três documentários com Os Satyros. Em Cuba libre, registro a volta de Phaedra D. Córdoba para Cuba depois de 53 anos diz o diretor, referindo-se à atriz transexual que integra a companhia. Também mostro a transformação da sociedade cubana no que diz respeito à aceitação dos homossexuais. Em Vila Verde, revelo o trabalho dos Satyros numa comunidade de Curitiba. E há mais um documentário centrado na trajetória do grupo.

No momento, Evaldo Mocarzel está escrevendo um texto para Ivam Cabral e Phaedra inspirado em Antonin Artaud. Terá ainda uma peça de sua autoria, Fome de notícia, lida no Satyrianas, evento que toma conta durante 72 horas ininterruptas da Praça Roosevelt, na próxima segunda-feira, às 19 horas.

Com o Grupo XIX de Teatro, dirigido por Luiz Fernando Marques, Evaldo viajou em turnê por cidades de Santa Catarina, onde a companhia apresentou o bem-sucedido Hysteria. Mocarzel acabou realizando dois filmes: um road movie e um outro que define como evasões das personagens da peça em dunas, cachoeiras, florestas . Com a companhia Os Fofos Encenam, acompanhou o processo do belo Memória da cana, atualmente em cartaz em São Paulo, montagem em que Newton Moreno relê Álbum de família, de Nelson Rodrigues, sob a influência de Casa grande & senzala, de Gilberto Freyre, e fez um documentário a partir do espetáculo Assombrações do Recife Velho. Para completar. enveredou pelo terreno da dança ao capitanear um filme sobre Polígono, primeira coreografia da São Paulo Cia. de Dança.

Resumindo os méritos

É um documentário sem palavra. A dança prescinde dela. O teatro, não. Fiquei um mês filmando pés, mãos, reflexos relembra Mocarzel.

Depois de tantas experiências, Mocarzel resume os méritos dos encenadores sobre os quais se debruçou.

Acho que é preciso documentar a efervescência do teatro paulistano. Newton Moreno me ensinou a potência da tradição. Antônio Araújo radiografou o essencial na arte. Rodolfo García Vázquez me fez perder o medo de escrever as loucuras que precisava. E Luiz Fernando Marques me encantou com espetáculos criados com uma simplicidade genial.