Vídeos coletados no YouTube são matéria-prima para Josh Poehlen

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO - Em quatro anos de existência na internet, o YouTube se tornou uma coleção de obsessões coletivas. Biblioteca audiovisual inesgotável da psiquê humana, o site é um espelho da nossa fascinação por celebridades, informação hiperespetacularizada, violência e, claro, acidentes e desastres. Fascinado pela ferramenta, o artista americano Josh Poehlen decidiu, desde 2007, criar colagens numéricas a partir de alguns dos vídeos postados. Com o título de Modern history, o projeto resulta em peças estranhas e fantasmagóricas, que remetem a cenários ao mesmo tempo românticos e apocalípticos. Disponível no site do artista (www.joshpoehlein.com), trata-se de uma obra em progresso, atualizada à medida que o YouTube vai acumulando mais conteúdo.

Eu sempre pensei em como estetizar e reunir, em um formato manejável, o vasto conteúdo disponível no YouTube explica Poehlen, recém formado pela Fine Art Photography do Rochester Institute of Technology, em Rochester, no estado de Nova York. Comecei com stills individuais, mas eu queria mais do que ser um simples compilador e então passei a procurar quais eram os vídeos mais populares no site. Todo o tipo de material escolhido tem um papel na criação das séries. E cada peça da série se transforma na realidade imaginada de um espaço virtual.

Os remixes visuais são compostos por diferentes stills, alguns com 50, outros com 100 fragmentos de imagens individuais ou parte delas. Num desafio lúdico, o espectador pode tentar identificar algumas. Poehler, porém, prefere não revelar quais vídeos apropriou. Conta apenas que as fontes variam de filmagens amadoras a matérias de telejornais, passando pelas telas escuras ou brancas que aparecem nos fins dos clipes.

Sempre fui fã desse espaço virtual diz o artista. Me perguntava o que era esta vasta comunidade de pessoas coletivamente interessadas nisso, e por quê? Não pretendo ter a capacidade de responder a esta pergunta de maneira satisfatória. Trata-se mais de uma investigação, sobre o que acontece quando trago diferentes pontos de vista e diferentes conteúdos em uma única composição.

Exercício de humildade

As sete peças realizadas até agora revelam uma atmosfera de fim do mundo, com dimensões épicas. Em Stump speech, refugiados exploram uma terra nova e inóspita, guiados por algum provável messias pós-apocalíptico. Em meio a paisagens desfiguradas, um corpo suspenso no ar reforça o tom surrealista. Já Burn down the disco vai por um caminho mais óbvio, retratando uma metrópole atingida por um cataclisma misterioso.

Enquanto Call of duty recupera explosões num clima árido e desolador (seria o atoleiro americano no Iraque?), a esplêndida The pursuit of loneliness se parece com uma tela romântica do século 19. Um grupo de pessoas avança entre as dunas do deserto, rumo ao desconhecido talvez o último refúgio da civilização. As peças forçam uma espécie de exercício de humildade para os seres humanos, retratados aqui como pequenas peças de algo maior, uma inevitável engrenagem. Como formigas num jardim pós-moderno, parecem movidos por uma histeria coletiva, inconscientes do abismo à sua frente.

Há, sim, uma atmosfera apocalíptica, mas não fui eu quem a criei, pois já está presente no site esclarece Poehlen. Vivemos numa cultura obcecada por desastres. Dê uma olhada no número de filmes populares lançados com o tema fim do mundo . O YouTube é apenas mais uma expressão desta fixação global.

Numa iniciativa pioneira, Poehler resolveu colocar as peças de Modern history à disposição dos internautas, que podem baixá-las, para uso próprio, em alta definição.

Tudo que usei como matéria-prima já estava disponiblizado gratuitamente. O trabalho de muita gente acabou criando essas imagens, por isso me sentiria estranho declarando-os como minha propriedade. Acredito que este é um caminho a ser explorado no mundo das artes. A tecnologia tornou a reprodução algo mais fácil e mais barato. Não vejo razão para imbuir um falso sentido de preciosismo para algo que pode ser facilmente reproduzido e transmitido mundo afora a olho nu.