Espetáculos marcantes dos anos 70 e 80 ganham novas montagens

Daniel Schenker *, Jornal do Brasil

RIO - A temporada teatral carioca está recebendo montagens de textos que não só ganharam encenações bem-sucedidas em décadas passadas como também remetem a fases efervescentes do teatro brasileiro. A geração Trianon, peça de Anamaria Nunes que evoca o funcionamento feérico das companhias na primeira metade do século 20, foi apresentada por integrantes do Grupo Tapa em 1989 e volta agora em versão assinada por Luiz Antonio Pilar. Theatro musical brazileiro 1, espetáculo de Luís Antônio Martinez Corrêa original de 1985, calcado em pesquisa minuciosa de revistas e burletas no período compreendido entre 1860 e 1914, retorna sob a condução de Fabio Pillar. E O arquiteto e o imperador da Assíria, de Fernando Arrabal, já em cartaz, representa uma revisita, a cargo de Haroldo Costa Ferrari, ao texto que recebeu encenação marcante no Teatro Ipanema, em 1970 (e outra em 1987).

O novo A geração Trianon, em cartaz na Casa de Cultura Laura Alvim, surgiu de um projeto da atriz Marta Paret, que assistiu várias vezes à montagem do final dos anos 80, a cargo de Eduardo Wotzik.

Acho que o texto de Anamaria Nunes traz à tona uma época em que o teatro era uma das manifestações mais relevantes para a sociedade. Até porque não havia televisão e muito menos internet assinala.

Marta alude a um período anterior à passagem para o teatro brasileiro moderno, que começou com a montagem do Teatro do Estudante do Brasil para Romeu e Julieta, de William Shakespeare, em 1938 ou, de acordo com muitos, com a revolucionária encenação de Ziembinski para Vestido de noiva, de Nelson Rodrigues, em 1943, com o grupo Os Comediantes. A chamada fase da Geração Trianon diz respeito às três primeiras décadas do século 20, quando as companhias obedeciam a um funcionamento hierárquico e os atores costumavam aproximar os personagens de suas próprias personalidades.

Eduardo Wotzik lembra com carinho da montagem de 20 anos atrás.

Quis fazer uma homenagem aos antigos comediantes diz o diretor. Temia que o espetáculo não tivesse graça porque seria um desserviço àquela geração. Mas quanto mais os atores acreditavam no texto, mais engraçado ficava.

Wotzik destaca a galeria de tipos que o texto original já trazia, um dos pontos altos da encenação.

Anamaria criou personagens muito humanos. Há uma história de amor entre o Ponto (profissional encarregado de soprar o texto aos atores) e a Primeira Atriz, uma jovem que quer entrar para a companhia e consegue espaço como vendedora de doces. Tem também um ator que pensa em se suicidar porque errou sua única fala. E ainda a figura do Mota, que era tão mau ator que todo mundo ia vê-lo. Dono de uma sapataria, ele fazia propaganda em cena relembra.

Theatro musical brazileiro 1 surgiu de uma investigação detalhada de Luís Antônio Martinez Corrêa acerca de libretos e partituras musicais (referentes a textos de autores como França Junior e Arthur Azevedo) e de sua parceria com a atriz e cantora Annabel Albernaz e o músico Marshall Netherland. O sucesso do espetáculo, apresentado na Sala dos Archeiros do Paço Imperial, levou Luís Antônio a conceber uma segunda parte, na qual abarcou o período entre as duas Guerras Mundiais (1918 a 1945). Após sua morte, a pesquisa foi perpetuada pela irmã, Maria Helena.

Luís Antônio era um filho para mim. Seu acervo pequeno, mas importante, foi guardado numa sala do Teatro Villa-Lobos, onde estourou uma bomba d'água logo depois que ele faleceu. Retirei tudo. Hoje o acervo está na Funarte informa Maria Helena.

O novo espetáculo, que tem estreia marcada para a próxima quarta-feira no Centro Cultural Banco do Brasil, conta com supervisão de Bibi Ferreira e traz uma amiga antiga de Luís Antonio: Analu Prestes.

Na época do Theatro musical brazileiro 1 estava trabalhando com Naum Alves de Souza. Luís Antônio me chamou para reeditar nossa parceria no Theatro 2, mas acabei indo atuar em Gardel, uma lembrança, de Aderbal Freire-Filho conta Analu, que ficou responsável, na nova encenação, pela cenografia. Concebi um cenário de telão pintado com um livro composto por 19 ilustrações correspondentes a cada uma das músicas. Luís Antônio gostava de trabalhar a partir da influência das artes plásticas. Fazia uso plástico de letras e palavras.

De volta ao cartaz na Sala Tônia Carrero do Teatro do Leblon, O arquiteto e o imperador da Assíria foi um dos marcos do Teatro Ipanema capitaneado, na década de 70, por Rubens Corrêa (1931-1996), Ivan de Albuquerque (1932-2001) e Leyla Ribeiro. Na montagem de 1970, Ivan dirigiu Rubens e José Wilker.

Na peça original houve 22 cortes da censura. Em cada um deles inserimos o som de uma sirene destaca Cecília Conde, responsável pela trilha sonora do espetáculo. Compus sons de floresta e inseri músicas religiosas.

Cecília, que participou ativamente do Teatro Ipanema, acompanhou a remontagem do texto de Arrabal em 1987, com Rubens Corrêa e Raul Gazzolla.

Apesar de não ter vivido a época do Teatro Ipanema, Haroldo Costa Ferrari, diretor da montagem atual, revela forte ligação com o período. Não por acaso, foi o curador do ciclo de leituras dedicado à dramaturgia de José Vicente, autor bastante valorizado pela turma do Ipanema, a julgar pelas montagens de Hoje é dia de rock e Ensaio selvagem.

Ele mal tinha assistido a teatro antes de começar a escrever. Fauzi Arap apresentou-o a Rubens e a Ivan revela. Autores como Vicente e Antonio Bivar são desconhecidos das novas gerações.

Haroldo não desanimou diante de eventuais comparações.

A encenação de 1970 tem importância incontestável na história do teatro brasileiro. Mas devemos ter a chance de apresentar novas leituras sem nos sobrepor ao que já foi feito resume.

A revisitação a textos que receberam montagens marcantes não para por aí. O produtor Eduardo Barata idealizou recentemente encenações de Brincando em cima daquilo, Um casal aberto ma non troppo, ambos de Dario Fo e Franca Rame, Fala baixo senão eu grito, de Leilah Assunção, e Doce deleite, de Alcione Araujo.

No Brasil costumamos montar obras clássicas do exterior. Não valorizamos como deveríamos autores brasileiros mais antigos ou os dos anos 70 e 80. Os textos que escolhi permanecem atuais destaca Barata, que foi impactado pelas encenações originais de Brincando em cima daquilo e Doce deleite.

* Especial para o Jornal do Brasil