Condoleezza, o musical

Daniel Schenker *, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - Em Cortejando Condi, longa exibido sábado na Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, nada é o que aparenta ser. O diretor Sebastian Doggart filmou a suposta devoção do ator e amigo Devin Ratray pela ex-secretária de Estado Condoleezza Rice. Mas Doggart e Ratray, que atravessaram boa parte dos Estados Unidos colhendo depoimentos de biógrafos e familiares, não são exatamente o que se poderia chamar de adoradores de Rice.

Condoleezza Rice foi a mulher mais poderosa do mundo. Antes de enveredar pela fase de pesquisa, tinha mais respeito por ela. Hoje acho que é uma criminosa que precisa ser julgada acusa Doggart. Seus atos ainda não foram devidamente investigados pela mídia. Ela teve grande responsabilidade por tudo o que aconteceu no governo de George W. Bush.

Na primeira metade, Doggart traça um retrato simpático de Rice ao mostrar as dificuldades que ela enfrentou na infância, passada no interior do país durante a década de 50, o vínculo com o pai e a conexão com a música. À medida que ingressa na carreira política, ressalta como Rice se torna uma figura polêmica e controvertida, especialmente depois da tragédia do 11 de Setembro.

Você pode ser culto e educado e praticar ações bárbaras. A educação não nos torna pessoas melhores. A tentação do poder influencia muito. Condoleezza Rice mudou de democrata para republicana. É a Lady Macbeth que manipula Macbeth; no caso, George W. Bush compara Doggart, que tem extensa carreira teatral.

O tom inflamado de Cortejando Condi lembra a contundência de Michael Moore. Já o deboche presente em várias cenas remete a Sacha Baron Cohen, o comediante inglês criador de personagens como o repórter do Cazaquistão Borat e o fashionista austríaco Brüno.

Moore nos ajudou bastante. Mas minha voz é bem diferente da dele. Em todo caso, acho que misturei um pouco de Fahrenheit 9/11, Borat e Mamma mia! assume Doggart, referindo-se aos filmes de Moore, Larry Charles e Phyllida Lloyd.

O diretor também apresenta Cortejando Condi como uma fusão de gêneros.

É um musical por causa da ligação de Rice com a música. Busquei o formato documental porque é o melhor caminho para falar sobre alguém. Investi na comédia porque na América é preciso ter final feliz. E me deparei com a tragédia já que, no final das contas, trata-se de uma tragédia americana detalha o diretor. .

Boa parte do material que não entrou no corte final será aproveitado em outra produção, American Faust, também centrada em Condoleezza Rice.

Entrevistamos pessoas cuja tortura ela autorizou garante Doggart.

Em Cortejando Condi, a leveza impera durante a projeção. Devin Ratray ficou encarregado de interpretar o fã inveterado de Rice.

Durante as filmagens, não poderia revelar a ninguém que não gosto dela. Nas entrevistas todos me olhavam como se fosse um lunático conta Ratray.

Sebastian Doggart garante que na vida real o ator é bem distante do personagem.

Devin é mais agressivamente engraçado. No filme ele precisava aparecer ingênuo, na linha Forrest Gump diz Doggart, mencionando o famoso personagem interpretado por Tom Hanks. Ele tem uma qualidade própria que remete a John Belushi, um talento de clown.

Ratray, é bom lembrar, participou do megassucesso Esqueceram de mim, estrelado pelo galã mirim Macaulay Culkin.

Foi o meu maior sucesso até agora. Mudou minha vida. Até hoje pessoas me escrevem dizendo que assistiram ao filme todos os dias durante cinco anos. Cresci nos anos 80 assistindo aos exemplares de John Hughes. Gostei bastante de trabalhar com ele relembra Ratray, que integra o elenco de Substitutos, novo filme de Bruce Willis que acaba de entrar em cartaz no Brasil.

* Especial para o Jornal do Brasil