Livro aborda temas fundamentais para o entender o Brasil

Rodrigo Fonseca, Jornal do Brasil

RIO - Atribui-se a Antonio Carlos Jobim a declaração, um tanto definitiva, de que o Brasil não é para principiantes . Se tiver sido mesmo dele a frase, Tom traduziu, com uma sábia simplicidade, a vocação de um país que se vê como um mistério a decifrar, uma teia inesgotável de contradições, uma soma de mitos e tensões um enigma, enfim. Essa fixação pela ideia de que somos um país em busca de uma interpretação para si aparece de maneira explícita no livro Um enigma chamado Brasil: 29 intérpretes e um país, organizado pelo sociólogo André Botelho e pela antropóloga Lilia Moritz Schwarcz e publicado pela Companhia das Letras. E a convicção da dificuldade crônica de compreender este enigma é reforçada não só pela citação a Tom Jobim, como epígrafe e conclusão dos organizadores, mas sobretudo pela pretensão didática.

Convém dizer que preocupação com as interpretações do país é algo presente há bastante tempo na tradição intelectual que se abriga no chamado pensamento social , campo científico dedicado aos complexos temas de nossa formação. A novidade, segundo sugerem os organizadores, é que autores consagrados como Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior têm saído das estantes das bibliotecas dos especialistas e entrado cada vez mais nos discursos dos políticos, das páginas dos jornais diários e em matérias de televisão . A eles se uniram intérpretes relegados ao esquecimento, como Visconde Uruguai, Manoel Bonfim e Oracy Nogueira. Motivo: uma nova curiosidade sobre tais Brasis .

É curioso ou louvável que uma obra como Um enigma chamado Brasil mostre até certa aversão à forma acadêmica. Uns mais, outros menos bem-sucedidos neste terreno, os ensaios assinados por intelectuais de relevo mostram-se concentrados em apresentar ao leitor uma linguagem acessível e uma análise concisa dos intérpretes e seu pensamento. O alvo do livro é claro: estudantes, leitores pouco familiarizados ou aqueles que podem ser chamados de leigos ilustrados. Integram ainda a receita desta pretensão o verbete com as indicações de leitura e a estrutura mais ou menos uniforme de apresentação, dividida entre uma breve biografia dos intérpretes e uma síntese analítica (mais síntese que análise) de suas obras.

Os textos acomodam-se no livro conforme a ordem cronológica dos pensadores escolhidos. O leitor percorrerá perfis e ideias de atores políticos do Império, teóricos do racismo científico e seus críticos na Primeira República, modernistas da década de 1920, ensaístas clássicos dos anos 1930, a geração pioneira dos cientistas sociais profissionais que se seguiu depois disso e seus primeiros discípulos. À primeira vista, soaria como a construção de uma linha de evolução desse pensamento social, equívoco do qual os organizadores buscam se afastar. Eles escrevem: Não se trata (...) de propor uma visão evolutiva, em que uma teoria supera a outra, mas antes mostrar como não há continuidade previsível nesse tipo de seara e arena .

Uma crítica ainda mais previsível, da qual os organizadores também já previamente se defendem, diz respeito, claro, às lacunas existentes. Esse tipo de problema é comum em seleções e/ou cânones de qualquer espécie. Um enigma chamado Brasil não foge à regra. Se a atenção dos examinadores dispensa nomes como Capistrano de Abreu, padre Antônio Vieira ou Vitor Nunes Leal, pode ser visto como algo comum, compreensível. Mas parece injustificável, por exemplo, a ausência de um intérprete como Celso Furtado seu Formação econômica do Brasil, que está completando 50 anos (e ganhou edição especial da Companhia das Letras), integra a galeria de livros-chave para a compreensão da formação social e econômica brasileira. Para não dizer da nítida preferência paulista-uspiana, capaz de incluir Fernando Henrique Cardoso e Roberto Schwarz e ignorar alguns intelectuais do Rio de Janeiro para citar um exemplo institucional, e não pessoal, por que não nenhum nome vindo do Iseb, por exemplo? Mas passemos.

Por formação social, entenda-se a referência não só às determinações econômicas, sociais e políticas que produzem um acontecimento histórico, mas também as transformações a continuidade ou descontinuidade dos acontecimentos, percebidos como processos temporais. Organizadores e os autores dos ensaios tentam mostrar, no fundo, como as diferentes interpretações do Brasil se tornaram matrizes de diferentes modos de sentir e pensar o país. A distribuição e a quantidade dos intérpretes escolhidos reforçam uma análise singular: a de concentração de intérpretes do Brasil em certo período da nossa história André Botelho e Lilia Schwarcz não se atêm a isso, mas é interessante lembrar como essa concentração se dá essencialmente entre a proclamação da República, em 1889, e o desenvolvimento mais pleno da universidade, a partir da década de 30 do século 20.

Historiadores e sociólogos abarcam a primazia de Um enigma chamado Brasil. A literatura, no entanto, também está bem representada. Mário de Andrade é estudado por Sergio Miceli (o autor de Macunaíma ainda é tema, nesta edição do Ideias, de uma entrevista com Mário Chamie nas páginas L4 e L5). Luiz Carlos Jackson analisa a sociologia da literatura do professor Antonio Candido. Sobre Roberto Schwarz escreve Leopoldo Waizbort. Os dois primeiros constituem exemplos de um método comum dos ensaístas: focalizar, quase em excesso, a trajetória pessoal do intérprete analisado. A intenção é deliberada, embora em alguns casos a biografia do intérprete parece ser mais relevante do que sua interpretação do Brasil.

Interpretação esta que pode ser atual, como mostra o saboroso ensaio de José Murilo de Carvalho sobre o radicalismo político no Segundo Reinado , ou uma visão vencida pelo tempo, como analisa Lilia Schwarcz no texto sobre o médico Nina Rodrigues. Pelo menos no que se refere ao debate político, a década de 1860 foi a mais fértil de todo o Segundo Reinado , escreve José Murilo. Em nenhuma outra se discutiu tanto a Constituição, o poder moderador, o sistema representativo, as reformas políticas e sociais . Esse debate, diga-se, deu-se intensamente em livros, no Parlamento e na imprensa foi nas páginas do Correio Nacional que surgiu a proposta de trocar o trabalho escravo pelo trabalho livre.

De Nina Rodrigues, Lilia Schwarcz lembra a imagem paradoxal: A despeito de ser frequentemente destacado como o primeiro antropólogo brasileiro a fazer um levantamento dos povos africanos residentes no país , escreve ela, ele é também lembrado como aquele que defendeu a existência de diferenças ontológicas entre as raças aqui residentes, e em especial por considerar a mestiçagem como um sinal de degenerescência . Nina Rodrigues não acreditava na viabilidade de um povo mestiço como o brasileiro.

Mestiçagem, raça, desigualdade e outras categorias de análises que se tornaram essenciais para o debate sobre a formação do Brasil surgem em intérpretes diversos como Gilberto Freyre, Roger Bastide, Oracy Nogueira e Costa Pinto a sociologia, como se vê pela maioria dos autores discutidos, é a disciplina substantiva. Há o caminho mais ou menos óbvio, mas trilhado com esmero pelos ensaístas convidados: o sertão de Euclides da Cunha, o homem cordial de Sérgio Buarque de Holanda, a guerrilha de Silvio Romero, a desigualdade de Octavio Ianni.

Os 29 intérpretes analisados incluem pensamentos ultrapassados como Nina Rodrigues, cânones incontestes como Oliveira Vianna, Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda e Caio Prado Júnior, e intelectuais que se envolveram ativamente na vida pública, como Darcy Ribeiro e Fernando Henrique Cardoso. Sobre este escreve com certa reverência o sociólogo Leôncio Martins Rodrigues, que não analisa tanto o papel de FHC como autor da teoria da dependência quanto a distância e a aproximação entre o político e o intelectual. Paradoxalmente, o intelectual FHC passa uma visão mais positiva dos políticos do que a que intelectuais habitualmente têm (...) Aprendeu que políticos e intelectuais estão em campos sujeitos a regras de comportamento e de ascensão diferentes .

Mas é o Raymundo Faoro traçado por Luiz Werneck Vianna um dos ensaios essenciais. Presença tardia na mansão da inteligência nacional, o historiador tem sido incluído, graças a novos livros e descobertas, no rol dos intérpretes clássicos das mazelas brasileiras. Aos estudantes e leigos ilustrados, convém reforçar: conhecê-lo pode significar não só a vitória contra letargia do conhecimento, mas também da mobilização.