Arnaldo Niskier lança livro sobre língua portuguesa

Carlos Nejar, Jornal do Brasil

RIO - Arnaldo Niskier acaba de lançar, pela União Editora, Língua portuguesa: uma paixão. E a paixão é uma das marcas da prodigiosa natureza deste autor, ciente com Pascal de que nada de grande se faz sem paixão . É um ativista cultural, mescla rara de pensador que faz e de fazedor que sonha mais longe. Fundador do Jornal de Letras, com o saudoso Antônio Olinto, ex-secretário de Educação e também de Cultura, do Rio , foi extraordinário presidente da Casa de Machado e é reconhecidamente um dos nossos mais importantes educadores.

Este livro é fruto de experiência e paixão em árvore frondosa, fecunda. Trata inicialmente do polêmico para alguns acordo ortográfico, prevendo na padronização da língua escrita formidável instrumento científico, literário e artístico. Não só pela circulação de obras, também pelo intercâmbio mais próximo de países de idioma comum. E é na língua, que, roseanamente, nos lembramos das coisas antes de acontecerem , já que é nela que todas as coisas acontecem.

O acadêmico Arnaldo Niskier, mestre das palavras, talvez no ofício de estar educando, mantém conquistada simplicidade, clareando as coisas, os fatos, os assuntos e as histórias, com alma ancestral de narrador (que o digam sua verve fabular na literatura infantojuvenil ou na incursão novelística), sem a sisuda e às vezes extemporânea erudição.

E sendo de clareza seu método, sem deixar de ser astuciosamente pedagógico, é de claridade ao fugir do senso cediço, corriqueiro, seja ao versar sobre a vida de Euclides da Cunha, com a inclusão da comovente crônica do jovem que beijou a mão, ainda pulsante e derradeira de Machado, seja ao falar dos direitos humanos que não estão escritos nas estrelas, mas é preciso construí-los , segundo Einstein, seja no poder insofismável da informação, preservada a sacra liberdade de errar, seja na corajosa percepção crítica do ensino público, onde o gasto com equipamentos sobrepuja o salário ao magistério que deve ser digno e justo, alertando sempre, para a precisão de um novo modelo, não transplantado, mas de acordo com as nossas reais circunstâncias, como no irônico preceito de Montaigne do sapateiro que sabe fazer sapatos grandes para um pé pequeno.

E a inquietude lúcida do ensaísta Arnaldo Niskier vai da análise do hino nacional, feito pelo que se denominava guarda-noturno da literatura , Osório Duque Estrada, ao patrimônio imaterial, ou às armadilhas das construções do estilo, ou a profícua cultura da ABL, sem esquecer, entre outros, o texto lapidar sobre o martírio de Branca Dias.

Defende Niskier uma ética na educação que, utilizando os avanços tecnológicos, deixe de lado o atraso da memorização dos conhecimentos, combatendo as ideias ultrapassadas ou envelhecidas, cuja serventia é o nada.

Seu livro é uma séria reflexão sobre este tempo, por vezes tão cego quanto surdo, um momento de consciência que acende como Kafka a sua lanterna. Uma consciência que resiste e não se amoita. E o dom de ver já é o começo da mudança.