Manhattan ao ritmo de Deborah Colker

Franz Valla, Jornal do Brasil

NOVA YORK - Após uma década longe dos palcos de Nova York, a coreógrafa Deborah Colker retorna a Manhattan com a apresentação de 4X4 espetáculo de maior rigor técnico do repertório de sua companhia de dança para uma curta temporada no City Center Theater, em cartaz até domingo. Da última vez em que se apresentou na cidade, no Joyce Theater, com Rota, em fevereiro de 2000, sua companhia de dança já acumulava ótimos elogios da crítica, mesmo com apenas cinco anos de atividade. Deborah retorna agora com a experiência de vários outros trabalhos de impacto na Europa e o mérito de ter sido a primeira mulher a dirigir um espetáculo para o prestigiado Cirque du Soleil o espetáculo Ovo estreou em maio, no Canadá. A escolha de 4X4 para este curto período tem significado especial para Deborah e sua equipe:

Foi a peça que levou mais tempo para ser desenvolvida, pouco mais de dois anos recorda a coreógrafa. Ela requer muita precisão dos meus bailarinos e faz tempo que eu queria mostrar este trabalho aqui em Nova York.

O espetáculo é o casamento entre dança e artes plásticas com instalações de artistas que representam quatro épocas e estilos diferentes. O quadro Cantos é baseado em Cildo Meireles, Mesa no coletivo Chelpa Ferro, Povinho em Vitor Arruda e Vasos em Gringo Cardia, que também faz a direção de arte da companhia e veio ajudar a montar os cenários nesta apresentação. Sempre junto à companhia em apresentações como esta, Gringo destaca a importância da cenografia nas apresentações:

As coreografias da companhia são desenvolvidas a partir dos cenários durante os ensaios e dos objetos que se espelham pelo palco comenta. À medida que vamos introduzindo um novo elemento, Deborah procura ver como ela e os dançarinos irão interagir com aquilo. Acredito que este seja o nosso diferencial em relação a outras companhias de dança. O resultado é mais orgânico, com mais energia. Podem levar de oito meses a um ano e meio ensaiando ate chegar à coreografia final.

O vigor exigido dos 17 dançarinos para esta coreografia pode ser observado durante o ensaio que antecede a estreia. Eram quase 23h e a trupe, que estava ali desde o início da tarde, ainda se preparava para repetir mais uma vez uma cena em que a equipe técnica do teatro não conseguia acertar a posição de um foco de luz no cenário. Os dançarinos, alheios à movimentação intensa entre os funcionários da casa que atravessavam o palco e os bastidores para tentar resolver o problema, não paravam sua rotina de aquecimento. Mesmo quando não estão se apresentando, precisam praticar por pelo menos oito horas por dia para manter a forma. Além da formação clássica, é preciso ter preparo físico para a execução de certas cenas. As exibições quase acrobáticas que a coreógrafa propõe a seus dançarinos foi o que chamou a atenção dos executivos do Cirque du Soleil quando a convidaram para criar um espetáculo para a franquia.

Estava em Londres fazendo uma apresentação quando me procuraram no camarim lembra. Disseram que tentavam me contactar fazia algum tempo, mas no momento em que fui chamada me senti pronta para aceitar o desafio. Não sei se teria dado certo se o convite acontecesse antes.

A experiência de trabalhar com o circo foi, nas palavras de Gringo Cardia, uma oportunidade para expandir ainda mais o trabalho da coreógrafa, uma vez que o padrão dos canadenses se assemelha muito ao repertório de Deborah. Foi preciso praticamente morar em Montreal para desenvolver a peça e até uma parede do estúdio da companhia no Rio foi transportada para compor os cenários. Só este ano foram 12 viagens ao Canadá para acertar detalhes de última hora. O espetáculo Ovo, uma história de amor no universo dos insetos, foi escrito e coreografado por Deborah e também conta com a colaboração de Gringo nos objetos de cena, cenários e edição de arte, além de Berna Ceppas na composição da trilha sonora, feita inteiramente com ritmos brasileiros. A turnê mundial da montagem está prevista para começar nos EUA, em maio do ano que vem, mesma época em que a companhia retorna a Nova York com outra peça do repertório.

Pretendo, ao mesmo tempo, começar a desenvolver uma nova peça durante o ano que vem e estrear já em 2011 planeja a coreógrafa. Tenho muito orgulho dos sete espetáculos do nosso repertório, mas já está na hora de aproveitar a experiência que acumulamos nesses anos para desenvolver este novo trabalho.

A agenda lotada não a impede de estar pronta para novos projetos. A Copa do Mundo no Brasil em 2014 e a Olimpíada de 2016 no Rio vão exigir os melhores talentos nacionais para desenvolver suas cerimônias de abertura e encerramento, e ela não nega que estaria disposta a participar se recebesse tal convite:

Experiência em eventos esportivos eu já tenho. Participei da equipe que desenvolveu atividades artísticas durante a Copa da Alemanha em 2006 e criei uma peça chamada Maracanã, que esteve em cartaz por lá na época. Não fui procurada, mas se o convite vier estarei mais do que pronta.