Filme traz novo olhar sobre mudanças sociais argentinas

Taís Toti, Jornal do Brasil

BELO HORIZONTE - O longa argentino O menino peixe, apresentado na Mostra CineBH, encerrado terça-feira na capital mineira, é uma história de amor, mas também poderia ser classificado como um thriller.

É complicado estabelecer um gênero, acho que são as duas coisas. A estrutura é de uma história de amor, que é atravessada por uma trama de suspense explica o produtor Sebastián Puenzo, irmão da diretora do longa, Lucía Puenzo.

O enredo aborda o romance entre uma menina de classe alta de Buenos Aires (Lala, interpretada por Inés Efron) e sua empregada paraguaia (La Guayi, vivida pela atriz e cantora Emme). Com a morte do pai de Lala, o clima de mistério começa e, além da busca pelo assassino, o passado da Guayi vai se revelando, assim como a lenda de um menino peixe que guia os afogados até fundo de um lago no Paraguai. Tudo é transposto para a tela em uma narrativa não-linear que dá um caráter ainda mais enigmático ao longa.

O passado da Guayi é contado à medida que a história se desenvolve. Na verdade, o filme começou com um roteiro linear. Foi na montagem que virou esse quebra cabeça, que ao longo da história vai se completando explica Puenzo.

De temática polêmica, O menino peixe retrata os conflitos da realidade social argentina, expondo a crise na alta sociedade e o relacionamento com as classes mais baixas.

É uma situação familiar complicada, uma família decadente. Mas não no sentido econômico, o relacionamento entre eles é deteriorado também. O pai é frustrado, o irmão estava na clínica de reabilitação, a mãe é alheia, e eles se preocupam muito com a imagem contextualiza o produtor.

O convívio com a empregada paraguaia faz com que Lala conheça um outro mundo:

A Lala é uma criança, tem aquela vidinha, vai para a escola, tem o ônibus que a leva direto, não conhece nada da rua comenta Sebastián Puenzo. La Guayi conhece mais o mundo real, e apresenta isso para Lala, levando-a para os bacantes, festas típicas na argentina que seriam como bailes funk no Brasil.

Livro é a base do roteiro

O longa é uma adaptação do romance escrito pela própria diretora, aos 23 anos, e que já foi publicado no Brasil, Argentina e Alemanha.

Acho que existe mais liberdade na hora de fazer o filme, por ela mesma ter escrito o livro, mas também fica mais difícil se descolar das próprias idéias. E também a linguagem cinematográfica é mais sintética observa Puenzo, que assume não ter lido inteiramente o livro da irmã.

Algumas mudanças são feitas, como o lago em que vive o menino peixe, que no livro faz referência a um lago real no Paraguai, mas foi preciso mudar o nome e a locação no filme para que as cenas pudessem ser feitas.

Também não podíamos filmar nesse lago menor e dizer que é o Ipacaraí, senão todo mundo que conhece o verdadeiro iria dar risada diverte-se Puenzo. Isso às vezes acontece em filmes americanos, que mostram alguma imagem estranhas como se fosse no Brasil ou na Argentina.

Sebastián Puenzo diz que a irmã estava segura na direção de O menino peixe, já que seu longa de estreia, XXY, fez bastante sucesso. O filme, de 2007, ganhou dois prêmios em Cannes e foi vencedor em várias premiações internacionais. Outro fator que tranquilizou Lucía Puenzo foi a presença da atriz Inés Efron no set.

Lucía tinha dirigido a Inés em XXY, e foi mais fácil trabalhar com ela novamente.