Arturo Sandoval reúne melhor do repertório em show

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Filho de um mecânico de carros e nascido na periferia de Havana, aos 12, extraía os primeiros sons de um trompete, aos 15, matriculava-se na Escola Cubana de Artes, aos 18, fundava, ao lado de Paquito

D' Rivera e o pianista Chucho Valdés, a Orquestra Cubana de Música Moderna, e aos 24, à frente da banda Irakere, arrebanhava o primeiro de seus quatro Grammys. O histórico precoce e a dimensão da foto ao lado provocam uma sentença que olhar e ouvidos não deixam mentir: Arturo Sandoval é um gigante da música cubana. Expoente do jazz e da cultura musical latina, o compositor, trompetista e pianista, radicado nos EUA há 20 anos, sobe quarta-feira ao palco do Vivo Rio para encerrar a série Jazz all Nights, que este ano trouxe à cidade nomes como Dianne Reeves e o também trompetista, compositor de trilhas para o cinema e papa Grammy Terence Blanchard.

Não preparei nenhum repertório especial. É o mesmo que apresento há tempos e cobre boa parte da minha carreira diz o músico ao Jornal do Brasil, por telefone. É diferente da música pop. O comprometimento de um artista de jazz como eu é o de mostrar uma proposta, por isso não fico preso aos meus últimos discos. Um jazzista é como o vinho, a cada ano melhor e com mais sabor. O modo de interpretar as canções só evolui com a experiência.

À frente de seu sexteto, formado pelos músicos Manuel Valera (piano), Dewayne Pate (baixo), Philbert Armenteros (percussão), Alexis Arce (tambores) e Charles McNeill (saxofone), Sandoval expulsa agudos de seu trompete e sons mais macios ao piano e flugelhorn, num repertório de baladas, standards e clássicos de seu repertório, recheado pelo ritmo e a dinâmica pulsante e energética da sua ilha natal, na qual desde 1999 não pisa.

Desde que fui para os EUA e ganhei cidadania americana não pude retornar a Cuba. Trouxe minha família para viver comigo e as coisas vão bem, mas infelizmente não faço a mínima ideia de como anda a cena musical ou quem são os novos nomes da música cubana.

Sob a benção de Gillespie

À época em que decidiu fincar em residência nos EUA, Sandoval contou com o apoio de um mestre do gênero, Dizzie Gillespie. Amigos desde 1977, o americano tornou-se mais do que mentor. Juntos, tocaram em festivais europeus e em Cuba nos anos 80. Apesar do sucesso internacional e o reconhecimento da crítica, Sandoval só podia se apresentar no exterior com a autorização de Fidel Castro. Até que em 1990, quando excursionava pela Europa pediu asilo na embaixada americana em Roma.

Ele me ajudou muito. Era uma relação de muito carinho e respeito lembra. Foram muitas oportunidades de trabalho, de aprendizado escutando sua música e, também, o muito que ele tinha a falar. Gillespie era um músico realmente fora do comum, extraordinário. Tive sorte de poder conviver com ele.

Considerado um dos melhores trompetistas da sua geração, Sandoval espera poder encontrar, na plateia ou fora dela, antigos amigos e músicos brasileiros.

Começar de novo, de Ivan Lins, é uma grande canção. Sou fanático por Elis Regina. Como jazzista latino admiro e tenho amigos, como Milton Nascimento, mas é uma pena que tenha perdido contato.