Quebra-cabeça psiquiátrico

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Nos últimos dois anos, Guilherme Leme traçou planos em sequência. Leu, selecionou e traduziu textos que o fazem agora colher peças em profusão. Após encenar e conciliar o fim da temporada de O estrangeiro com a montagem de Shirley Valentine, em São Paulo, o diretor seguiu um ritmo intenso de ensaios para a estreia do espetáculo Laranja azul, que sobe o palco do Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) a partir de quarta-feira. Enquanto isso, já planeja uma nova montagem inédita para 2010, Rock Antígona, descrita por ele como uma adaptação contemporânea para o texto de Sófocles, com o som de rock inglês .

O engraçado é que a trilha de Laranja azul também tem muito rock. Acho que gosto disso observa Leme.

Na peça em questão, assinada pelo dramaturgo inglês Joe Penhall, o ator Rocco Pitanga interpreta Cris, um paciente de um hospital psiquiátrico que está prestes a ser liberado do tratamento. Seu médico (vivido por Pedro Brício), porém, intercede e exige a permanência do interno por mais tempo. Desconfia que o paciente é esquizofrênico e o fato de ele não ter família e lugar para morar pode representar um perigo para a recuperação. O diretor do hospital, ao contrário, defende a tese de que o paciente é apenas um borderline, ou um bipolar. Ele prega que os doentes mentais devam ser acompanhados em casa e, no caso de Cris, a internação apenas agravaria seu quadro.

É um texto muito bem desenhado e escrito. Apresenta questões muito sérias, polêmicas e profundas, mas sem tomar partido de um médico ou de outro. O espectador é provocado a tomar partido e formar juízo. Coisa que o Joe não faz explica Leme.

Além do choque entre pareceres clínicos, outro antagonismo se revela ao longo da trama:

O chefe do departamento psiquiátrico é um homem mais velho, mas é ele quem decide por um tratamento mais moderno, no qual o paciente deva ter liberdade. Enquanto o residente, mais moço, adota uma política conservadora e opta pelo prolongamento da internação. É um jovem que questiona um protocolo moderno.

Em Laranja azul , o embate entre os dois psiquiatras evolui para uma batalha de egos que extravasa os meandros da clínica psiquiátrica:

Eles brigam até o fim. E a disputa de poder e autoridade vai tão longe que a vida do paciente é relegada ao último plano.

A montagem foi alimentada também por pesquisas que o diretor fez sobre o tema. Leme visitou instituições psiquiátricas como o Ipub, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o hospital Philippe Pinel e os Centros de Atenção Psicossocial (Caps). Frequentou ainda consultórios médicos e divãs particulares para especialistas o ajudassem a entender, talvez de uma vez por todas, que não há uma única e verdadeira versão para o mundo em que vivemos.

A peça joga com as diferentes possibilidades de interpretação e diagnósticos médicos, usados para avaliar as condições psíquicas de um paciente observa o diretor.

E no mar de incertezas clínicas em que o texto se desenrola, apenas uma certeza:

Não há certo ou errado, bem ou mal, e muito menos protocolos médicos infalíveis.

Criado por José Dias, o cenário do espetáculo transforma o teatro 3 do CCBB numa enorme caixa branca iluminada por lâmpadas fluorescentes, aludindo à assepsia do ambiente hospitalar. A plateia é obrigada a vestir jalecos brancos.

A ideia é fazer o público se sentir como se estivesse dentro de um hospital afirma Leme.

O texto também lança luz sobre temas como os problemas da saúde pública, o racismo institucionalizado e disputa de poder político. A situação do paciente e seu destino estão à mercê dos caprichos das autoridades responsáveis por ele.

Os dois médicos concordam que Cris tem alguma doença mental, mas a psiquiatria não é uma ciência exata lembra Leme. Cada diagnóstico é resultado de uma determinada avaliação. A partir dessa incerteza, o autor destaca a dificuldade e a importância da definição de uma doença. O psiquiatra age como um juiz. Ele analisa e receita medicamentos conforme sua concepção.

Leme chegou a apresentar o caso relatado no texto original de Joe Penhall para que dois psiquiatras diferentes criassem um diagnóstico. Assim como na ficção, comprovou que um poderia ser exatamente oposto ao outro:

A maioria dos especialistas consultados tem opiniões divergentes. Os psiquiatras me disseram que é completamente possível dois profissionais determinarem procedimentos completamente diferentes. Eles trabalham com diagnósticos possíveis, mesmos que sejam opostos. É incrível e até assustador. Descobri que a psiquiatria, assim como outras ciências, é abstrata.