Críticos de arte comentam a destruição das obras de Hélio Oiticica

Carol Almeida, Portal Terra

SÃO PAULO - O objeto na obra de Hélio Oiticica (1937-1980) foi, por várias vezes, uma provocação ao próprio estado corpóreo da arte, ao paradigma superado do quadro de cavalete. Com a destruição da maior parte de seu acervo nesse sábado (17), após um incêndio na casa do irmão do artista, César Oiticica, as cinzas que restaram cobrem agora não apenas a ausência dos objetos originais do artista, essas cinzas servem de manto para o que havia de inestimável em seu trabalho: o incorpóreo. "Isso equivale a uma segunda morte dele", avalia o crítico de arte Agnaldo Farias e "a perda de um pensamento", nas palavras da professora Lisette Lagnado, da Faculdade Santa Marcelina, em São Paulo.

Após o trágico acontecimento, vários críticos, curadores, artistas e pensadores tentam avaliar agora a dimensão da perda sofrida pela arte contemporânea brasileira com a destruição do acervo de Oticica, que é considerado um dos maiores artistas plásticos do País e aquele que melhor soube sistematizar o pensamento da arte enquanto uma reflexão para além da forma, do corpo e das cinzas. O prejuízo, orçado na calculadora em U$ 200 milhões, não tem valor quantificável para a arte nacional.

Confira o que Lisette Lagnado, Agnaldo Farias e Eduardo Saron, superintendente do Itaú Cultural, que programa uma exposição sobre Oiticica para 2010, têm a dizer sobre o artista que, embora seja hoje mais reconhecido pelos intricados parangolés (boa parte deles agora completamente destruídos), marcou seu nome na história da arte brasileira a partir dos anos 1960 como um homem que questionava a existência dos "ismos" e do estado corpóreo da arte.

"Ontem (17), fui percebendo aos poucos a dimensão da perda, até porque eu não tinha dado conta que o arquivo textual estaria entre a parte destruída. Acredito que há agora a perda de um pensamento. Nunca conheci um artista brasileiro que, além de ter sistematizado sua própria obra, tivesse tão bem sistematizado a produção de outros artistas. Todos esses textos foram embora. Estou mais abalada pela destruição dos manuscritos, do pensamento dele, do que pela destruição da obra própria. Dentro do panorama brasileiro, Oiticica é único. Penso nele como patrimônio universal", Lisette Lagnado.

Lisette Lagnado foi curadora da 27ª Bienal de São Paulo e trabalhou durante três anos no acervo do Projeto Hélio Oiticica na digitalização do trabalho (objetos e documentos) do artista para o Programa Hélio Oiticica, uma iniciativa do Itaú Cultural. Ela acredita que, quando saiu do projeto, ainda faltava digitalizar de 10 a 20% do trabalho de Oiticica.

"Ele era um dos mais importantes artistas contemporâneos. Quando você vê que artistas como Zé Celso, que vai buscar no Oiticica elementos pra construir sua própria obra, se tem de fato uma referência para a arte de uma maneira geral. No ano que vem serão 30 anos da morte de Oiticica e, ainda hoje, ele é uma referência atual para vários artistas que enxergam nele o que há de provocador. É triste ver esse acervo destruído, mas é também interessante observar esse evento, porque, no fundo, Hélio Oiticica era uma pessoa que criava obras temporais. O processo para ele às vezes era muito mais importante do que a obra pronta. É uma idiossincrasia, mas revela um pouco quem era ele. O que resta agora é se mobilizar para recuperar o que significa Helio Oiticica pra arte contemporânea brasileira", Eduardo Saron.

Eduardo Saron é superintendente de atividades culturais do Itaú Cultural, instituição responsável pelo projeto Programa Hélio Oiticica, que digitalizou boa parte do pensamento do artista. Com o incêndio do sábado (17), ele afirma que, junto à família do artista, terá que reelaborar a mostra.

"Hélio Oiticica era um artista de maior renome internacional e esse renome internacional é justificado porque ele efetivamente foi um artista de primeira grandeza, daqueles que se enquadram como artistas revolucionários. Todos os livros de história da arte que são produzidos hoje já colocam Oiticica como um artista seminal. Não conheço aqui no Brasil um artista que tenha tamanha reflexão, tão sistemática e cuidadosa, sobre o próprio trabalho e o trabalho de outros artistas. A contribuição dele é de primeira linha. Isso que aconteceu equivale a uma segunda morte dele", Agnaldo Farias, crítico de arte e curador.