Regras para a ousadia cênica

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

RIO - À frente do Núcleo Experimental, Zé Henrique de Paula dá a impressão de ter adquirido o poder da multiplicação pelo menos, nos palcos de São Paulo. Nos últimos tempos vem apresentando vários espetáculos bem distintos entre si. Ou nem tanto. Cândida, versão para o texto de George Bernard Shaw, é o único que tem estreia agendada no Rio, no Teatro Municipal do Jockey, na Gávea, a partir de 6 de novembro depois de rápida passagem por Niterói. O público paulistano também pôde assistir a As troianas Vozes da guerra, no qual o diretor desloca os personagens da tragédia de Eurípedes (485 a.C 406 a.C) para o contexto dos campos de concentração nazistas, O livro dos monstros guardados, novo texto de Rafael Primot, e O endireita, mergulho no universo da comédia dell'arte. Senhora dos afogados, releitura da peça de Nelson Rodrigues realizada a partir da inserção de pérolas da música popular brasileira, continua integrando o repertório do grupo. Zé Henrique explica as semelhanças entre as montagens.

Trabalhamos com duas vertentes, simultaneamente ou não: as operações sobre os textos que escolhemos e a tentativa de descobrir um novo lugar para a música no teatro menciona.

Fim da trilogia

Em Cândida, o diretor decidiu incluir as rubricas de Bernard Shaw na estrutura do espetáculo. A montagem é a última parte de uma trilogia formada também por R&J, de Joe Calarco, e Mojo, de Jez Butterworth.

R&J mostra jovens saindo da adolescência, em fase de afirmação da identidade sexual. Mojo parece pegar os mesmos personagens 10 ou 15 anos depois, num momento de conquista de território, quando estão menos ligados à identidade afetiva e profissional compara. Cândida flagra os personagens ainda depois, numa fase aparentemente estável e bem-sucedida. É como se Bernard Shaw pinçasse um dos garotos de R&J e o colocasse num outro mundo, desestabilizando-o.

Bia Seidl, que interpreta a personagem-título, chama atenção para a preocupação em manter fidelidade a Bernard Shaw, ao espírito transgressor do dramaturgo.

Procuramos nos colocar a serviço do autor sem investirmos numa montagem ortodoxa. Há uma desconstrução da formalidade no modo de dizer o texto conta a atriz.

Nas outras montagens do Núcleo, Zé Henrique assumiu operações contundentes nas dramaturgias de autores renomados. Basta dizer que em As troianas Vozes da guerra, os atores falam alemão e as atrizes cantam músicas de nacionalidades diversas.

Não quis usar o texto de Eurípedes, pelo menos não na boca das atrizes. Decidi abraçar idiomas de povos em situação de guerra. Para as atrizes as letras das canções se tornaram texto, não apenas uma melodia, e as músicas foram inseridas no tecido dramático da peça explica Zé Henrique, que firmou parceria duradoura com a diretora musical e atriz Fernanda Maia.

Em Senhora dos afogados, Zé Henrique e Fernanda propiciaram o casamento entre Nelson Rodrigues e Chico Buarque.

Era uma ideia antiga. A primeira música que Fernanda trouxe foi Pedaço de mim. Aos poucos, começou a alinhar o sentido da letra com um determinado personagem ou trecho da peça. A função da música nessa montagem é a de transmitir fluxos de pensamento dos personagens, que dizem o que não poderiam em forma de canção.

Adepto de incisões dramatúrgicas criativas, Zé Henrique, porém, não pula etapas.

Falava para os meus alunos que logo queriam enveredar pela experimentação e resistiam ao aprendizado do realismo para fazerem cadeiras de quatro pernas antes de partirem para as de três ou de duas conta Zé Henrique.

Em O livro dos monstros guardados, de Rafael Primot, montagem que traz a premiada Sandra Corveloni (melhor atriz no Festival de Cannes de 2008 por Linha de passe, de Walter Salles e Daniela Thomas) no elenco, Zé Henrique de Paula estruturou sete monólogos em cena:

É um texto sobre a sombra, sobre certo lado escuro escondido, abafado, negado ou desconhecido de cada pessoa. Fiquei instigado. São monólogos simultâneos. Os personagens não se relacionam, não ocupam o mesmo espaço. Os atores é que apontaram para possibilidades de cruzamento desses monólogos.

Educação informal

Nascido em Sorocaba, onde começou a fazer teatro amador, Zé Henrique se formou em arquitetura. Mas não se distanciou do teatro. Durante a faculdade começou a fazer assistência do cenógrafo J.C Serroni nas montagens de Antunes Filho no Centro de Pesquisa Teatral (CPT).

Não tive educação formal. Adquiri conhecimento de modo empírico. Aprendi um pouco de tudo, começando por subir escada para afinar refletor evoca Zé Henrique, que costuma assinar a cenografia e os figurinos de suas encenações, além de ocasionalmente trabalhar como ator, a exemplo de sua recente presença nos elencos de Camaradagem e Amargo siciliano, montagens do Grupo Tapa, a cargo de Eduardo Tolentino de Araujo, para os textos de August Strindberg e Luigi Pirandello.