Antunes Filho: Quero acabar com a ilusão do teatrinho

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

RIO - Antunes Filho não está, de modo algum, virando as costas para o passado. Mas assumiu sintonia com os dias que correm, a julgar pelo vapt-vupt de sua nova A falecida, atualmente em cartaz no Espaço CPT do Sesc Consolação, em São Paulo.

Hoje em dia o ritmo é outro. Não que eu concorde com o mundo que está aí fora. Mas não posso fazer nada. Tenho que negociar resigna-se Antunes. Então, se você for ao teatro para fugir desse cotidiano acelerado não venha ver A falecida.

Entretanto, não se trata simplesmente de se curvar diante da realidade imperativa. Uma montagem como a de A falecida vapt-vupt decorre também de uma visão de Antunes acerca do teatro e, em especial, da relação com a plateia.

Antigamente, o público tirava luvas e cartolas para assistir aos espetáculos. Agora quero que os espectadores sejam desestruturados, que adquiram novas formas de percepção ressalta o diretor, que vai completar 80 anos em dezembro.

É a terceira vez que o encenador se debruça sobre uma das mais relevantes tragédias cariocas de Nelson Rodrigues. A primeira foi em 1965, na Escola de Arte Dramática (EAD). A segunda, no final dos anos 80, no elogiadíssimo Paraíso Zona Norte. Agora, Antunes Filho contextualiza a história de Zulmira, determinada a garantir a si mesma um enterro de luxo, na agitação de um bar tomado por movimento feérico.

Quis trazer a sensação de Rio 40 graus diz, referindo-se ao emblemático exemplar do cinema novo assinado por Nelson Pereira dos Santos. A supressão das personagens do bar modificaria tudo. O pano de fundo altera o conteúdo.

Antunes reconstitui em cena a atmosfera do bar, com mesas forradas com toalhas envelhecidas e o trânsito constante de clientes e garçons.

Decidi lidar com um texto que conhecia justamente para desenvolver uma pesquisa. Estou quebrando com o que é antiquado em teatro. Desejo acabar com a ilusão do teatrinho. Uso cada vez menos cenografia. Digo aos iluminadores que gostaria de deixar tudo claro. Aprecio o movimento dos atores. É o movimento da vida.

Atores tomam conta da cena

O diretor se refere a um teatro pautado pelo essencial, perspectiva que norteia o projeto Pret-à-porter, no qual os próprios atores se responsabilizam pela concepção de cenas destituídas de elementos supérfluos, e as montagens das tragédias gregas, principalmente as duas versões de Medeia, de Eurípedes. Há ainda outros elementos que determinaram na escolha de A falecida:

- É uma peça simples e eu gosto muito dela. Todos os personagens me despertam piedade. Estão pré-julgados pelas situações.

Antunes aproxima Zulmira de Joaquim, o líder fanático de Vereda da salvação, de Jorge Andrade, texto que visitou duas vezes em 1964, na montagem do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), e no excelente espetáculo de 1993.

Zulmira e Joaquim são pessoas sufocadas, que sentem necessidade de encontrar uma linha de fuga compara o diretor.

A aceleração não diz respeito apenas a sua concisa A falecida. Nos últimos meses, Antunes vem trabalhando em ritmo intenso. Tanto que se prepara para estrear, em novembro, Lamartine Babo e, em março, O triste fim de Policarpo Quaresma, a partir do romance de Lima Barreto.

Lamartine é um drama musical com um pouco de biografia anuncia, sinteticamente, em relação ao espetáculo realizado a partir de um texto de sua autoria. Já um autor como Lima Barreto proporciona uma análise do Brasil de todos os tempos.

Não é de hoje que Antunes mapeia o país através de obras literárias, valendo lembrar de sua revolucionária releitura de Macunaíma, de Mario de Andrade, e do recente A pedra do reino, de Ariano Suassuna. Na literatura teatral, o diretor vem priorizando Nelson. Além de A falecida, encenou Bonitinha mas ordinária, Nelson Rodrigues O eterno retorno (depois condensada para Nelson 2 Rodrigues), a citada Paraíso Zona Norte e Senhora dos afogados. E subverteu clássicos como Esperando Godot ao convidar atrizes como Eva Wilma e Lelia Abramo para interpretar os personagens de Samuel Beckett.

Ao longo do tempo, desenvolveu um método de trabalho com os atores do Centro de Pesquisa Teatral (CPT). A experiente Laura Cardoso atesta o valor de Antunes.

Se todo ator tivesse a sorte de passar pelo Antunes seria a glória. Ele é considerado um dos melhores diretores do mundo. E não é tietagem minha elogia Laura, conduzida por Antunes em sua estreia no teatro, em Plantão 21, de Sidney Kingsley, e, mais recentemente, na segunda montagem de Vereda da salvação, na qual interpretou a sofrida Dolor.

Mesmo sublinhando o vínculo com a contemporaneidade, Antunes não nega a importância do TBC no seu processo de formação.

Os resíduos constituem o artista. Não existe ser puro. Vi atores como Jaime Costa e Procópio Ferreira nas suas habilidades individuais. Eram extraordinários. Depois, o TBC foi importante porque colocou disciplina no teatro brasileiro, algo que não existia. O ator começou a se comportar de maneira diferente compara. Na companhia de Franco Zampari, os diretores sabiam fazer o teatro comercial bem feito. Aprendi muita coisa lá. Agradeço a Adolfo Celi, Ziembinski, Ruggero Jacobbi. Falar mal deles seria uma infantilidade. De qualquer modo, há coisas maiores do que aquilo que você diz. Ninguém é o centro do mundo. As pessoas tendem a se dar muita importância.

Diante da nova e emblemática idade Antunes segue conduzido pela inquietude suscitada por suas investigações cênicas.

Estou no caminho. É o que importa resume.