Pitty toca no Circo Voador as músicas do CD 'Chiaroscuro'

Taís Toti, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O rock em meios-tons de Pitty

Não espere eu ir embora pra perceber/ Que você me adora/ Que me acha foda . O refrão de Me adora, primeira música de trabalho do novo disco de Pitty, acabou sendo mal interpretado por ouvidos desatentos.

A pessoa ouve duas palavras do refrão e pensa Ah, meu Deus, que prepotência . Mal sabe que eu não estou falando de mim, por mais que a letra seja em primeira pessoa, é um eu-lírico conta a cantora, que apresenta Me adora e as outras músicas do novo CD Chiaroscuro ao vivo em show neste sábado, no Circo Voador. Sempre rola um mal-entendido com as letras. As pessoas querem tudo muito mastigado e literal, e eu não sou de oferecer isso, gosto de colocar quem me ouve para pensar.

Coisa que Pitty com certeza conseguiu, pelo menos com o inusitado título do disco, Chiaroscuro. A palavra italiana significa, literalmente, claro-escuro, e é usada para definir a técnica de pintura de Leonardo Da Vinci em que ele explorava o contraste entre luz e sombra.

O nome só surgiu depois que eu observei que existia ali esse contraste. É uma coisa mais sutil e sombria e, na música, a também gente viu esse paralelo. Tem esses momentos mais claros e mais escuros no disco, e o conceito se estende para essa dualidade: preto e branco, bom e mau, céu e inferno. A a gente convive com isso o tempo todo.

Soul, tango e bolero

O rock ainda é o foco, mas em Chiaroscuro Pitty também explora o soul, tango, bolero e música erudita, colocando, além das tradicionais guitarras, baixo e bateria, sintetizadores, percussão e violino. Mas, ao vivo, as músicas acabam ficando mais cruas do que no disco, já que para reproduzi-las Pitty continua com os três integrantes Martin (guitarra), Joe (baixo) e Duda (bateria), que a acompanham.

Tivemos que adaptar todas as coisas que gravamos no disco, chegamos até a cogitar a necessidade de mais músicos, mas vimos que não precisa. Eu estou tocando sintetizador, teclado, fazendo os efeitos de voz no pedal, tudo para ficar mais próxima da sonoridade do disco.

Junto com a turnê de divulgação do disco, Pitty lança, neste mês, o DVD Chiaroscope, documentário que mostra os bastidores da gravação de Chiaroscuro.

É tipo um home movie, um apanhado de tudo o que aconteceu na gravação. Mas é um formato diferente, não é documental, com depoimentos. É mais surreal, mais de videoarte mesmo, não tem texto.

Esse clima caseiro do DVD é reflexo também das gravações, conduzidas informalmente enquanto a banda estava estúdio Madeira, local de ensaio na casa do baterista Duda.

Todo mundo operou a câmera em algum momento. Quem estava com mão livre filmava recorda a cantora. Mas quem comandava as gravações era o diretor Ricardo Spencer, que colocou essas cenas adicionais, então todos acabaram contribuindo para o resultado.

Além das 11 canções do disco, Chiaroscope inclui as inéditas Pra onde ir, Sob o sol e Just now.

Cada música virou um clipezinho independente, com interlúdios entre as músicas com imagens de coisas diversas.

Primeiro disco de inéditas de Pitty após quatro anos, Chiaroscuro foi gestado nos intervalos de duas longas excursões.

Esse tempo se deu naturalmente. Saí do Anacrônico, que teve uma turnê longa, veio o DVD ao vivo {Des}Concerto, e mais outra etapa na estrada. A gente estava bem ocupado, só quando paramos de viajar tivemos tempo para gravar, juntar as coisas que já tínhamos feito e compor outras.

Em um ambiente dominado pelos homens, Pitty lidera praticamente sozinha a participação feminina no rock, mas espera ter mais companheiras femininas:

Vi muitas meninas tentando nos últimos anos, vamos ver se agora é a hora, espero que role um movimento. Mas são tão misteriosas as razões que fazem alguém dar certo; não é só investimento, não é só talento, não é só sorte: não existe fórmula.