Eustáquio Gomes lança coletânea de crônicas em torno de livros

Alvaro Costa e Silva, Jornal do Brasil

RIO - Recolhido (ou expulso?) ao porão de sua casa, o velho cronista leva junto sua biblioteca ou a biblioteca foi mudada para lá e ele, por não querer separar-se dos livros, é que foi junto? Pouco importa diante do problema maior que tem pela frente. Como arrumar os muitos volumes nas estantes? Certas pessoas passam a vida inteira arrumando seus livros e nunca dão o trabalho por terminado. Esse parece ser o caso do velho cronista. Ajeitá-los por gênero? E depois por autores? É o arranjo clássico, que não serve ao seu estado de espírito subsolar. Então resolve fazê-lo de acordo com prioridades idiossincráticas, das quais damos alguns exemplos:

a) Livros que precisam ser relidos de vez em quando, no todo ou em parte, para a gente voltar a sentir que ainda é capaz dos grandes sentimentos de antes;

b) Romances que nos marcaram a adolescência e que agora, relidos, se recusam a mostrar o mesmo encanto;

c) Clássicos que todo mundo diz ter lido e que nos derrotaram entre as páginas 50 e 84, deixando em nós uma sensação de incompetência e de falta de sintonia com a opinião universal, isto é, com o cânone;

d) Livros adquiridos em sessões de lançamento, com autógrafo garranchoso, e que agora nos pesam, porque somos obrigados a fugir do autor para não ter de justificar nosso silêncio;

e) Livros que nos próprios escrevemos. Movidos por alguma obscura intenção, e que agora nos olham como se não nos reconhecessem ou tivessem sido escritos por outro, produtos talvez do sonho de algum autor com cara de fuinha cuja existência nem mesmo é um fato absolutamente certo.

É a matéria de que é feita A biblioteca no porão, de Eustáquio Gomes, recém-distribuída às livrarias pela editora Papirus. Como Paisagem com neblina, coletânea de crônicas em torno da infância e adolescência publicada pelo autor em 2007, a nova obra é uma reunião temática. Como vimos, trata de livros, e também de autores, estes nem sempre notórios, às vezes bem obscuros. É que Eustáquio Gomes pode se dar o luxo: faz há 12 anos uma crônica semanal para a revista Metrópole, que sai aos domingos no Correio Popular, o principal jornal de Campinas, e já acumula mais de 600.

Na verdade, o autor escreve histórias, não propriamente crônicas. O que lhe interessa é o personagem. O fio condutor de A biblioteca no porão foi criado a posteriori (o velho cronista que muda com sua biblioteca para o porão e dali passa a ler o mundo), e não chega a configurar um enredo contínuo, salvo que há uma voz que se anuncia no começo e segue narrando até o final. Todos os personagens são reais, salvo um, que foi inventado (como não somos desmancha-prazeres, deixamos para o leitor a descoberta). Há uma entrevista com um gato (igualmente real), mas as opiniões são de Jorge Luis Borges.

Nascido em Campos Altos (MG) em 1952, autor de livros de ensaios, biografias e reportagens, na obra de Estáquio Gomes destacam-se os romances Jonas Blau (1986), O mapa da Austrália (1998) e A febre amorosa (1984), que teve tradução para o russo em 2005. Em 2007, publicou um impressionante diário pessoal, Viagem ao centro do dia, análise clínica de uma metamorfose, a do jovem de província que, a duras penas, torna-se escritor mas não confia em seu talento ou, por outra, é levado a acreditar na inexistência dele pela quase indiferença dos outros.

A sombra das páginas do diário a que o autor continua a se dedicar com devoção religiosa perpassa a reunião de crônicas. É comum a citação de outros irmãos na fé, Amiel, Kafka, Lima Barreto, o suíço Robert Walser (cuja obra de ficção se assemelha a um extenso diário íntimo), Eduardo Frieiro, Hilda Hilst.

Amenos, os temas do cronista guardam sempre um interesse oculto. Conta como conheceu o antigo secretário de Mário de Andrade, José Maria Faria Ferraz, o mui ilustre zebentinho cabeça de água na definição do patrão, e ouve de dona Sônia, a mulher do secretário, que o mestre modernista era muito feio . Revela que Kafka amava as crianças e não era o ser soturno que todos imaginavam, no texto mais comovente da coletânea. Escreve a García Márquez para informar o paradeiro do obscuro editor do primeiro livro do colombiano nobelizado e amigo de Fidel. Entrega como Hemingway veio a detestar Carmen Miranda e os brasileiros em geral. Comove-se com a sorte de um médico, José Crispim de Carvalho, que escreveu duas dúzias de romances e morreu inédito, com o epíteto de o Proust de Itatiba .

Na incrível história de um homem que passou meio século no encalço de um romance O judeu errante, de Eugene Sue o cronista encerra dizendo que pouco importa se o livro é bom ou ruim: Uns buscam o Graal, outros o livro da sua vida . Eustáquio Gomes, que escreve diários desde a mocidade, ainda nos deve um livro da sua vida.