David Sedaris ironiza a própria vida em novo livro

Henrique Rodrigues, JB Online

RIO - Quando esteve na Festa Literária Internacional de Paraty, em 2008, David Sedaris revelou que utiliza a própria vida como elemento de inspiração para sua obra. Mais precisamente, afirmou que 97% do que escreve provêm da observação acurada do que acontece no entorno. Sua trajetória, iniciada em programas humorísticos de rádio, é típica da comédia stand-up, em que o autor, antes de publicar, tem a oportunidade de sentir a reação da plateia às tiradas. Nas constantes apresentações que faz em vários países, o escritor aproveita para retroalimentar o trabalho.

Alguns desses textos, publicados nas revistas Esquire e The New Yorker, foram reunidos no livro Engolido pelas labaredas, da Companhia das Letras. Considerando que é o terceiro livro de Sedaris publicado pela editora, supõe-se que o humorista vem conquistando leitores também no Brasil.

Os artigos são narrados em primeira pessoa e contam situações supostamente vividas pelo autor, às quais acrescenta um olhar irônico e um estilo peculiar, como na sua posição diante da miopia: O colégio me ensinou uma lição valiosa a respeito de óculos: não use óculos. Lentes de contato sempre pareceram muito trabalhosas, por isso prefiro franzir os olhos e aceitar que se alguma coisa estiver a mais de dois metros de distância eu só vou lidar com ela quando chegar lá . Ou mesmo quando recebeu de presente uma cueca com enchimento: Apesar do formato de pera, meu traseiro artificial não era desprovido de encantos. Adquiri uma confiança que eu não sentia havia anos e passei a dispor de uma boa desculpa para comprar calças justas e jaquetas à altura da cintura . Ainda que com escrita elegante e nunca apelando para o grotesco, há um vestígio de oralidade no ritmo do texto, o que torna a leitura bastante agradável. Entre algumas frases, é como se fosse possível ouvir a claque.

O humor de Sedaris é frequentemente comparado ao de Woody Allen. Se por um lado não lança mão do nonsense do cineasta, mesmo porque atrela o texto à vida pessoal e sem pendores ficcionais, o autor muitas vezes adiciona certo lirismo aos artigos. As lembranças familiares acabam por retratar também um american way of life com o qual o público se identifica rapidamente. Vivendo atualmente em Paris, o autor tem a vantagem do distanciamento para colher as memórias pessoais e convertê-las em literatura.

O homossexualismo, tema que perpassa vários artigos, é tratado com a mesma comicidade de qualquer outra situação, motivo pelo qual é bastante lido até nos estados mais conservadores dos EUA. Desse modo, ao não levantar bandeiras e tratar toda a vida como matéria do riso, Sedaris confere ao texto a liberdade que o humor realmente procura, sobretudo quando se utiliza da autoironia, como na ocasião em que uma amiga apenas se fingiu surpresa ao saber que ele era gay: '''É a maneira como você corre', explicou. 'Você abana os braços, em vez de manter os cotovelos rentes ao corpo' . O humorista também consegue flertar com o politicamente incorreto, como no último e longo texto em que narra como deixou de fumar, ainda que fosse um hábito extremamente prazeroso: Quando faço uma retrospectiva de todos os meus anos como fumante, meu único arrependimento é pelo lixo que gerei .

Ao observar, da janela de casa, turistas americanos que descobrem não saber nada em francês ou como se perdem andando na cidade, Sedaris se situa na posição literalmente superior para rir dos seus compatriotas. Em outro momento, no entanto, é ele quem se vê perdido, tanto em lugares quanto nas diversas situações da vida prática à qual não consegue se adaptar. Sendo sujeito ou objeto das histórias, o humor é que sempre deixa a realidade mais leve e suportável.