Cubano Wilfredo Lam leva 140 gravuras à Caixa Cultural

Isabela Fraga, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Filho de um escrivão chinês com uma mulata cubana, Wilfredo Lam (1902-1982) era, em pessoa, uma espécie de síntese de seu trabalho. Considerado um dos expoentes do surrealismo nas artes plásticas mundiais, Lam se diferencia da escola vanguardista por ter se apropriado de uma maneira única das características do movimento iniciado por André Breton, inserindo nele elementos multicultirais e tropicais referentes à sua origem latino-americana. Mesmo com sua importância reconhecida no mundo todo, nunca havia sido feita uma exposição individual de Lam no Brasil. O vácuo está prestes a ser preenchido: a partir da próxima quinta a Caixa Cultural inaugura a exposição Lam: Gravuras, a maior mostra do artista já realizada no mundo, neste formato.

A curadoria de Paulo Venancio Filho trouxe para o Brasil 140 gravuras e quatro desenhos que abrangem um período de mais de 40 anos da carreira de Lam. Entre eles, estão ilustrações que o artista fez para obras de escritores como André Breton e Gabriel García Márquez, além de gravuras inspiradas na célebre pintura A selva, em que busca retratar, à sua maneira, as condições e multiplicidades do povo cubano.

A ideia de realizar a exposição partiu do próprio Venancio, ao reconhecer a importância do artista e a lacuna deste no circuito de exposições do Brasil. Em contato com a Associação de Amigos do Lam, o curador conseguiu trazer as obras, que estavam em Paris.

Lam foi uma figura bastante importante dentro do contexto da arte moderna europeia afirma Venancio. Mas sua grandeza se dá pela forma como ele se apropriou do surrealismo europeu e criou uma estética bem pessoal.

A aproximação de Lam com o surrealismo se deu com sua ida para a Europa, em 1923, onde conheceu o cubista Picasso e, mais tarde durante a Segunda Guerra Mundial ficou amigo de Breton e de outros surrealistas. Mas foi só com o seu retorno a Cuba, em 1941, que Lam tratou com mais consistência da realidade de seus país.

É quando ele se encontra com suas raízes cubanas e faz uma mistura com o surrealismo, a partir da incorporação da carga mítica e religiosa ao seu trabalho explica Ania Rodriguez, curadora da mostra Arte de Cuba, que o Centro Cultural Banco do Brasil sediou em 2006. Essa apropriação que ele fez do surrealismo e do imaginário cubano acabou se tornando um recurso de inserção num contexto internacional, e ele se tornou conhecido no mundo todo.

A leitura surrealista de Lam de elementos tropicais é evidente em suas gravuras. Cores quentes presença constante de marrom e vermelho, por exemplo criaturas negras, elementos religiosos e sexualizados diferem completamente sua obra dos clássicos surrealistas como Salvador Dalí e Magritte.

Ele introduziu uma visão fantástica dos trópicos no surrealismo opina Venancio. Por isso, tem uma proximidade muito forte com o Brasil. Talvez Brasil e Cuba sejam os únicos países que têm os mesmos elementos culturais que o Lam desenvolveu, toda uma grande miscigenação.

Apesar das credenciais que inserem Lam no seleto grupo de artistas citados, sua fama não chegou com a mesma força ao Brasil.

Acho que o Brasil é um país que olha muito para a Europa e para os Estados Unidos, e tem pouca integração com a arte latino-americana, que é o contexto mais imediato opina Ania Rodriguez.

>> Em cartaz

Lam: Gravuras

Caixa Cultural, Avenida Almirante Barroso, 25, Centro (2544-4080).

3ª a sáb., das 10h às 22h; dom., das 10h às 21h. Grátis. A partir da próxima quarta. Até 3 de janeiro.