O dia do Chagall, nada menos de 52 anos depois

Bolívar Torres, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Bielorusso naturalizado francês, Marc Chagall (1887-1985) foi influenciado por diferentes movimentos artísticos, mas nunca se prendeu a uma única escola. Circulando por universos tão diferentes como o judaísmo, o folclore russo ou a cultura helenística, conseguiu, paradoxalmente, deixar um traço único e inconfundível, que pode ser conferido a partir de sexta-feira na mostra 'O mundo mágico de Marc Chagall O sonho e a vida', no Museu Nacional de Belas Artes.

Com 283 obras do artista, entre pinturas, guaches, esculturas e gravuras, é a primeira exposição dedicada ao artista no Brasil em 52 anos. Realizada entre as celebrações do Ano da França no Brasil, levou dois anos para ser organizada pela curadoria, com um orçamento de R$ 4,5 milhões, e teve passagem por Belo Horizonte, onde foi vista por 58 mil pessoas.

Reunimos obras que estavam na França, na Rússia e em coleções do Brasil para formar um conjunto abrangente do seu trabalho, da juventude até sua velhice conta o curador Fabio Magalhães. Chagall realizou pinturas, gravuras, cerâmicas e decorações, mas focamos apenas nas pinturas e gravuras. Aliás, foi um artista que, como Miró, se destacou tanto na gravura quanto na pintura. Cultivava grandes amizades com escritores de seu tempo e admirava literatura, daí seu interesse pela ilustração. Ele desenvolveu na litografia uma técnica especial, que reproduzia efeitos de aquarela.

Na mostra, as 105 águas-fortes de A Bíblia, uma das séries mais conhecidas do artista, na qual trabalhou entre 1931 e 1939, e que traz histórias do Velho Testamento, como a saída dos judeus do Egito e a construção da arca de Noé. Apaixonado pelo livro sagrado, Chagall o descrevia como a maior fonte de poesia de todos os tempos , e afirmava procurar seu reflexo em sua vida e arte.

Chagall capta a Bíblia de maneira muito livre explica Magalhães. Representa Deus, coisa que o judaismo nao permitiria. E mostra um Davi sensual.

Outros trabalhos importantes são as 107 gravuras de Almas mortas (seu primeiro grande trabalho de ilustração, baseado no romance de seu conterrâneo Nikolai Gogol) e as 42 litografias de Daphnis et Chloé, pastoral grega escrita no século 2 d.C. pelo poeta Longus e que já inspirou artistas como o compositor Maurice Ravel. Chagall mergulha na cultura helenística, sem a noção de culpa e pecado da Bíblia, numa explosão poética de cores. Na década de 50, o artista chegou a viajar duas vezes à Grécia em busca de inspiração.

Entre as pinturas, destaque para Village au cheval vert ou vision à la lune noire ( Vilarejo com cavalo verde ou visão sob a lua negra ) e Les mariés au traîneau et au coq rouge ( Os noivos com trenó e galo Vermelho ). Para complementar a exposição, a curadoria concebeu um núcleo que contextualiza as relações de Chagall com o Brasil e sua influência na arte brasileira. Foram selecionadas 25 obras de artistas brasileiros que trazem alguma relação com sua obra, como Cícero Dias, Ismael Neri, Lasar Segall e Tomás Santa Rosa.

Apesar de ser admirado por surrealistas (André Breton o considerava um dos melhores expoentes do movimento), Chagall nunca se considerou como tal. O artista flertou com várias escolas, mas sempre buscou um caminho independente. A associação com o surrealismo se dá principalmente pela parte de sonho e imaginação presente em seu trabalho, definido por alguns como cromatismo onírico .

Chagall misturava céu e terra, sonho e realidade, mas isto não fazia dele um surrealista comenta Magalhães. Ele nunca ingressou em escola alguma, mas se deixou influenciar por várias. Seu cubismo trabalhava o espaço de uma maneira que não poderia ser definida como cubista. Sua palheta era absolutamente pessoal.