Alair Gomes é destaque entre as mostras no Paço

Isabela Fraga, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O olhar do fotógrafo e crítico de arte Alair Gomes (1921-1992) sobre o corpo masculino faz transparecer todo o erotismo nele contido característica já conhecida pelas célebres fotos dos rapazes na praia de Ipanema tiradas por Gomes na década de 70. O fascínio do artista pelos músculos, as formas e o sexo masculinos se evidencia, elevado a proporções extremas numa série de fotos recentemente encontradas por sua irmã e que compõem a exposição A new sentimental journey (Uma nova viagem sentimental), que abre quinta-feira para o público no Paço Imperial.

Frutos de uma viagem empreendida pela Europa em 1983, as fotos que compõem a exposição apresentam estátuas greco-romanas e renascentistas de rapazes jovens sob ângulos antes pouco registrados, exaltam o erotismo dos corpos de mármore. Junto com as fotos, foi encontrada também uma espécie de diário filosófico-poético cujo título batizou a exposição no qual Gomes narra sua viagem e reflete sobre as figuras nela encontradas, sejam as próprias esculturas ou homens em carne e osso.

Além de enfatizar a obsessão de Gomes pelos corpos masculinos, as 130 fotos de A new sentimental journey (bem como os escritos de mais de 500 páginas que as acompanham) também revelam uma ligação com o erotismo, independentemente da forma como ele é representado. O fotógrafo Miguel Rio Branco, curador da exposição, concorda.

É um trabalho de mais qualidade conceitual e representativa do que unicamente fotográfica opina. Alair era excessivamente ligado ao corpo masculino, e sua abordagem nas esculturas se revela igual à que ele tinha com os homens na praia.

As imagens que Gomes fez das esculturas européias apresentam, por exemplo, um Davi de Michelangelo extremamente erotizado e por isso ainda mais próximo do divino. Essa, aliás, é outra característica do trabalho do artista que pode ser percebida na exposição do Paço: a proximidade e, por vezes, sobreposição, entre o sagrado e o erótico. A beleza do homem é a representação artística do divino e leva o artista ao êxtase escreve Marcia Mello, diretora da Galeria Tempo, no catálogo da exposição.

O trabalho de Rio Branco como curador de A new sentimental journey não se limitou a escolher as fotos da exposição. Como elas estavam soltas e desorganizadas, coube a ele uma interpretação sobre aquele trabalho e uma edição que desse sentido às fotos.

Foi interessante fazer montagens de fotos que não são minhas afirma Rio Branco. É muito diferente, pois eu não estava trabalhando com uma temática própria. Tentei, então, colocar um pouco da minha personalidade naquele trabalho.

Essa personalidade pode ser percebida nos muitos trípticos e polípticos das fotografias, uma característica bastante pessoal. Como o próprio Gomes, entretanto, Rio Branco apresenta uma visão cinematográfica das imagens com sua edição.

Alair fez fotos do Davi de Michelangelo muito fragmentadas, como se fossem quadros de cinema conta. Mas ele era mais linear, e talvez eu tenha quebrado um pouco essa linearidade durante a edição. Minha montagem é mais aparentemente desconexa, como feita em zigue-zague.

Além da exposição de Alair Gomes, o Paço também inaugura quinta-feira mais três mostras de artistas brasileiros e de um francês. Em O catador, o anjo e o menino encorcovado, do paulista Julio Villani (que vive há 27 anos na França), o artista busca retratar sua infância por meio de intervenções plásticas e colagens em fotos antigas. Já na mostra da francesa Anne Deleporte, intitulada De la mer a la lune, a artista brinca com o desaparecimento e o aparecimento por meio de uma projeção em DVD. A França também está presente na exposição Ícones do design França-Brasil, objetos representativos de ambos os países no campo do design são expostos, como a caneta Bic, o avião Demoiselle, de Santos Dumont, e a espreguiçadeira de Le Corbusier.