Pausa para a tensão e a violência

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO - O diretor sueco Ingmar Bergman costumava dizer que filmar era como combinar uma ida à praia com um monte de gente. Fica-se a tarde inteira fazendo um castelo de areia enorme, até que uma onda venha e desfaça aquilo tudo. Então, todos entreolham-se e dizem: Amanhã aqui de novo, no mesmo horário, certo ? A história é repetida por Andréa Beltrão para explicar o prazer de voltar a trabalhar com uma equipe que se conhece de outros projetos. Foi o que a atriz sentiu ao participar de Salve geral, o candidato brasileiro ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, que entra no circuito hoje, apesar de nunca ter feito um filme com o diretor Sérgio Rezende antes.

Tivemos uma afinação muito rara. Tenho parceiros profissionais incríveis na minha vida, como o Maurício (Farias), o Guel (Arraes), Aderbal (Freire-Filho), mas o Sérgio entrou assim, rasgando. Sabíamos exatamente o que o outro estava pensando. Em um único projeto, criamos um vínculo que só tenho com essas pessoas com quem trabalho há décadas derrete-se a atriz de 46 anos, que na TV e no cinema interpreta a divertida cabelereira Marilda, na série A grande família. Ele é um diretor clássico, o set dele tem uma atmosfera de muita sabedoria, precisão e tranquilidade. Dizia para ele: Fazer um filme contigo deve ser como trabalhar com um John Huston . O Sérgio tem muita experiência, é do tempo do copião.

A serenidade que Andréa encontrou no estúdio foi essencial para um filme que fala sobre o caos. Salve geral é ambientado durante os dias em que antecederam os ataques que o Primeiro Comando da Capital (PCC) promoveram em São Paulo, no Dia das Mães de 2006. A atriz interpreta Lúcia, uma professora de piano que acaba se trabalhando para integrantes da facção criminosa depois que o filho adolescente (Lee Thalor) é preso por envolvimento com um pega de carros que terminou com a morte de uma jovem. É o segundo papel dramático no cinema em menos de um ano (o outro é Verônica, dirigido por Maurício Farias) de uma atriz cuja imagem esteve associada à comédia desde o sucesso do seriado Armação Ilimitada (1985-1988).

Espero não me libertar jamais desse excelente rótulo de comediante. É um título de nobreza na minha profissão, fico honradíssima com ele. Nunca foi um problema para mim, porque jamais precisei provar que sou uma atriz dramática. Tenho uma carreira bem diversificada, inclusive no teatro, passo uma parte enorme do tempo em cima do palco observa a atriz, sócia de Marieta Severo no Teatro Poeira, em Botafogo. Nunca pensei em construir uma carreira, seguindo uma determinada lógica. Vou muito pela importância de um trabalho naquele momento para mim.

Andréa sempre fora a primeira opção de Rezende para a protagonista de Salve geral.

Tenho uma admiração enorme por ela. Por ser amigo da Marieta Severo, com quem já fiz outros filmes, a Andréa sempre estava por perto, e com essa imagem de atriz de teatro, que ela teve menos oportunidade de mostrar no cinema comenta Rezende. O grande público a conhece mais como comediante, por causa da televisão. Achei que Salve geral poderia lhe dar essa chance.

O filme chama a atenção do espectador para o grau de desorganização da sociedade, que leva à brutalidade, à violência. Salve geral é centrado em uma das vítimas desse estado de coisas: Lúcia, cuja maior preocupação na vida até então era se ajustar a um novo status social, resultante da viuvez, agora precisará sujar as próprias mãos para garantir a segurança do filho.

O que mais me chamou a atenção no projeto foi o roteiro em si, eletrizante e emocionante, com histórias humanas dentro. Adoro filmes de ação, é um dos meus gêneros preferidos. Na primeira leitura, todas as tramas tinham sua importância conta a atriz, que vê Lúcia como uma heroína atípica. Ela encarna um tipo de mulher que admiro: discreta, misteriosa, pensa muito antes de falar e agir. É serena, nada autoritária e sabe jogar com as situações. Não tem um pingo de autopiedade.

Em breve, Andréa estará de volta ao gênero que a popularizou. Em janeiro estreia O bem amado, de Guel Arraes, releitura cinematográfica da célebre novela da Rede Globo, cuja primeira versão foi ao ar em 1973. Além de promover a reunião com Arraes, um de seus colaboradores mais constantes, o filme permitiu à atriz revisitar as loucuras do prefeito Odorico Paraguassu, um dos programas favoritos de sua infância.

Faço a Dulcinéia, que era interpretada pela Dorinha Durval na novela original. conta. O bem amado fez parte da minha vida, era criança na época, mas lembro do prazer de assisti-la. Ainda é, para mim, um grande momento da televisão brasileira.

Leia as críticas do filme na 'Programa'