Nathalie Stutzmann interpreta temas do compositor austríaco no Rio

Rodolfo Valverde, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Dona de uma voz absolutamente rara, em verdadeiro registro de contralto, Nathalie Stutzmann mostra ao público carioca, nesta segunda-feira, às 20h30, por que se tornou uma das maiores intérpretes das últimas décadas. Abrindo a série Concertos Internacionais da Dell'Arte, no Teatro João Caetano, ao lado da pianista sueca Inger Södergren, a cantora parisiense é de uma versatilidade ímpar, abraçando com igual desembaraço e domínio estilístico o repertório barroco, clássico, romântico e contemporâneo.

Um timbre bem menos explorado no repertório operístico que a voz de soprano, o contralto tem, em contrapartida, uma ampla participação no repertório sacro, camerístico e mesmo sinfônico, como em obras de Brahms e Mahler. Em ópera, a voz de contralto tem seu território de eleição nas composições do período barroco, em especial no estilo italiano de opera seria, em papéis protagonistas originalmente não concebidos para uma cantora, mas para os célebres castrati (castrados) dos séculos 17 e 18, estrelas maiores daquela época. Foi em papéis compostos para castrato de algumas das principais obras de Händel que o talento de Nathalie Stutzmann despontou na cena internacional nos anos 80, provocando frisson por sua imensa força dramática e pela originalidade e cor de seu timbre, escuro, quente, aveludado, capaz de intensificar cada recôndito emocional do texto musical.

Como contralto, posso conseguir uma profundidade e uma cor que um contratenor não pode oferecer na ópera barroca, nem mesmo mezzo-sopranos cantando em registro mais grave observa Nathalie, consciente das qualidades em sua voz.

Ávida musicalmente, Nathalie já abordou uma parte significativa do repertório para sua projeção vocal, registrado em mais de 75 gravações para alguns dos selos mais importantes da música clássica, como a RCA, sua gravadora oficial, Deutsche Grammophon, Philips, EMI, Sony e Erato. Dos registros mais recentes, destacam-se as sólidas parcerias artísticas da cantora francesa com Simon Rattle e a Filarmônica de Berlim, com Mark Minkowski e Les Musiciens du Louvre (em um programa Haydn gravado pelo selo Naïve) e a integral das cantatas de Bach com Sir John Eliot Gardiner.

Discípula do grande baixo alemão Hans Hotter, Nathalie tem uma afeição primordial pela música de câmara, em especial o lied alemão e a mélodie francesa, aos quais dedica uma parte significativa de sua atividade como intérprete, em recitais e gravações com Inger Södergren, sua partner artística desde 1994. Memoráveis são suas performances de canções de Fauré, Chausson, Poulenc e ciclos integrais de Schumann e Schubert, todos registrados em CD. Do lied alemão, destacam-se suas interpretações, ricas em nuances e com um colorido distinto, de canções e ciclos não habitualmente associados à voz feminina, como Die Schöne Mullerin, gravado e lançado em 2008 pelo selo Calliope.

Os ciclos de lieder de Schubert são as minhas gravações de que mais gosto. Interpretá-los é um grande desafio, pois são canções que precisam soar simples e naturais, mas é música de grande dificuldade e sofisticação pondera a cantora, reconhecida com premiações internacionais como o Grammy, Deutsche Schallplatten Kritik Preis e o Japan Record Academy.

A grande cantora Kathleen Ferrier, legendária contralto britânica, é uma referência em sua arte vocal, mas Nathalie confessa que seus modelos de interpretação e suas fontes de inspiração podem ser mais abrangentes:

A música de qualidade, realizada com maestria e beleza, é o que me inspira. Da naturalidade e sensibilidade de Ferrier às sinfonias de Brahms regidas por Karajan.

A inquietação musical de Nathalie, também pianista e fagotista, a leva agora em outra direção: a regência.

Quero me dedicar também à carreira de regente, e ver a música do outro lado, sem restrições de estilo comenta Nathalie, que no Rio interpreta canções do último lieder de Franz Schubert, Schwanengesang (O canto do cisne). Para a orquestra de câmara que criei, selecionei instrumentistas que dominam tanto os instrumentos antigos quanto os modernos.