Livro discute ligações de Barack Obama com Bill Ayers

Cecília azevedo*, Jornal do Brasil

RIO - Durante a acirrada disputa para a nomeação pelo Partido Democrata, surgiram notícias sobre ligações perigosas de Barack Obama com Bill Ayers. Obama teria estado em sua casa em meados da década de 90, numa reunião cujo objetivo era apresentar aos demais convidados o então candidato ao legislativo de Illinois. Depois estiveram juntos na direção de uma organização dedicada a distribuir fundos para reformas de escolas públicas de Chicago. Mas, afinal, qual a razão do escândalo? Quem é Bill Ayers? Antes de se destacar como professor da Universidade de Illinois e especialista em educação de jovens, o vizinho de Obama em Hyde Park passou a década de 70 na clandestinidade, junto com sua mulher Bernardine Dohrn. O casal era membro dos Weathermen, grupo que no final de 1969 assumiu a luta armada, associando-se aos revolucionários do Terceiro Mundo especialmente os vietnamitas em luta contra o capitalismo e o imperialismo representados por seu país, os EUA.

Os Weathermen, restrito a poucas dezenas de pessoas, se dispersaram em pouco tempo, depois de lançar bombas de efeito meramente simbólico em alguns alvos como o Pentágono. Os Weathermen encerraram de forma melancólica a história de uma organização que encarnou as contradições e complexidades da nova esquerda americana nos anos 60 a SDS Students for a Democratic Society (Estudantes para uma Sociedade Democrática) e que é o principal objeto de A nova esquerda americana: de Port Huron aos Weathermen (1960-1969), de Rodrigo Farias de Sousa, recém-lançado pela editora FGV. Para reconstruir essa história, o livro, fruto de uma dissertação de mestrado premiada na UFF, se assenta em pesquisa bibliográfica e documental rigorosa, valendo-se de fontes internas da organização, memórias de seus integrantes e material de imprensa do período.

Se a história dessa organização é pouco conhecida de norte-americanos hoje em dia, como se pode depreender das notas explicativas nos jornais que exploraram a suposta relação Obama-Ayers, o que não dizer do público brasileiro, cuja visão em geral muito simplificada do universo político estadunidense não permite imaginar ou conceber que tenha existido algo que possa ser considerado esquerda em um país visto como essencialmente autocentrado e conservador. Diante dos estereótipos e da escassez de análises rigorosas sobre a história norte-americana recente, o livro de Rodrigo Farias vem a calhar, ainda mais depois de a eleição de Obama ter demonstrado que os EUA são um país extremamente complexo e plural.

E plurais também foram as esquerdas, cuja história, no que diz respeito a movimentos e organizações, para não falar em pensadores e correntes filosóficas, remonta à virada do século 19 para o 20, quando anarquistas e socialistas dominaram o movimento operário e lançaram a objeção consciente ao alistamento militar. Durante a depressão e as lutas sindicais nos anos 30, os comunistas ganharam proeminência, tornando-se alvo preferencial na caça às bruxas da Guerra Fria. Apesar da perseguição e dos cismas internacionais, a chamada velha esquerda americana se organizou em diversos partidos e influenciou a geração que despontou no início dos anos 60, a despeito da busca de uma identidade própria expressa na auto-denominação nova esquerda.

Numa narrativa segura e sedutora, o autor nos conduz dos primórdios da organização na Universidade de Michigan, onde foi concebido o manifesto inaugural de Port Huron, até a convenção de Chicago em 1969, na qual os Weathermen, depois de uma encarniçada disputa entre facções, assumiram o que sobrou da organização.

Ao longo do percurso, apresenta com riqueza de detalhes as circunstâncias, teóricos, lideranças, projetos das diferentes organizações e correntes de dissenso, apontando articulações e convergências, como também embates e rupturas entre marxistas e não-marxistas; liberais e nova esquerda; estudantes brancos e negros; partidários da violência e da não violência; da reforma e da revolução, entre outros caminhos alternativos que marcaram as organizações do período. O quadro que se revela em relação à SDS é paradoxal: no momento do ápice quando alcança a marca de 100 mil membros a organização se esfacela por conta do sectarismo crescente e do divórcio entre a direção e as bases. Os integrantes da primeira geração se dispersam frente à inversão absoluta de seus princípios originais: da negação da centralização e verticalismo em nome da afirmação da democracia participativa, passa-se à teoria do foco e da vanguarda revolucionária. Estudantes e intelectuais perdem o papel privilegiado de catalisadores de lideranças e movimentos comunitários. O novo lema é desestudantizar a SDS e abrir mão do estilo contracultural, das identidades especificas de raça e gênero, das questões relacionadas à subjetividade e ao cotidiano de modo a aproximar a organização dos trabalhadores e integrá-la à luta de classes. O fundamento moral da crítica à segregação racial e desigualdades sociais e econômicas e o apelo aos valores republicanos igualdade perante a lei, liberdade de expressão e busca da felicidade presentes na declaração de Port Huron, foram descartados. A América transformou-se em Amerika, a Babilônia racista, e o credo americano foi substituído pelos postulados terceiro-mundistas e anti-imperialistas que exigiam utilizar todos o meios necessários para bloquear e não apenas denunciar o complexo industrial-militar e as tendências totalitárias do sistema. A resistência pacífica e a desobediência civil foram suplantadas pela autodefesa e a luta armada.

A vacilação e insensibilidade do Partido Democrata frente às demandas de reconhecimento e integração dos negros do sul na estrutura partidária, a escalada da guerra no Vietnã, a brutal repressão aos protestos contra a guerra, a infiltração das organizações negras e estudantis são alguns dos fatores apontados pelo autor para explicar a radicalização política que teve curso a partir da segunda metade da década. No caso da SDS, a rejeição de procedimentos e normas regimentais mais elementares num contexto de expansão geográfica e diversificação ideológica de seus quadros contribuiu para o posterior aparelhamento por militantes marxistas disciplinados, a drástica mudança de rumo e a cisão interna.

Vale observar, no entanto, que aos olhos do autor, a dissolução da organização não encerrou as ricas experiências políticas que se desenvolveram durante a década. Elas penetraram em espaços institucionais e se consolidaram, como foi o caso das lutas feministas e étnicas. Os movimentos comunitários também resistiram, dando margem ao surgimento de novas lideranças e a projetos reformistas e alianças no campo liberal democrático. Embora centrado na década de 60, o livro de Rodrigo Farias nos ajuda a entender a cena política atual e a recuperação deste passado hoje. O renascimento da SDS em 2006, registrado nas últimas páginas do livro, aponta nesse sentido.

* Professora de história da UFF