Mostra 'Obranome 2' une 58 artistas em poesias visuais

Isabela Fraga, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - No plano piloto da poesia concreta, escrito em 1951, Augusto de Campos, Décio Pignatari e Haroldo de Campos clamavam que as obras deveriam se desgarrar do verso, do ritmo e da métrica. No papel, esse pensamento iconoclasta traduziu-se em caligramas, ideogramas e concretude desdobramentos da união entre escrita e imagem que podem ser vistos a partir de sexta-feira na exposição Obranome 2, no Parque Lage. Lá estão expostas obras de 58 artistas contemporâneos que trabalham com a relação da palavra com as artes visuais, das mais diversas formas. Com curadoria de Wagner Barja, a exposição é a segunda edição de uma série, iniciada na 1ª Bienal Internacional de Poesia, em setembro de 2008.

Palavra e imagem fazem parte de uma mesma semântica visual e, quando são fundidas na mesma matéria-prima, geram o conceito de obranome explica Barja.

Nas duas salas que a exposição ocupa, há obras tanto de artistas que sempre trabalharam com poesia visual quanto de outros que começaram a tratar dessa relação mais recentemente. Nomes como Hélio Oiticica, Waly Salomão, Xico Chaves, Luiz Ernesto e Arnaldo Antunes estão presentes, misturando artistas consagrados com outros que ainda estão estabelecendo seu nome no meio.

Quando entra nas salas da cavalariça do parque, onda a exposição está montada, o visitante é impactado pela profusão de letras e textos espalhados nas paredes, no chão, em quadros e até como projeção. É como se a própria palavra se revoltasse contra a ideia comum de que ela deveria ficar presa a um texto. A mensagem é clara: ela é livre, e pode ser tanto escrita quanto imagem. A diferença, afinal, é bastante tênue.

O texto já é, por si só, uma imagem declara Barja. E, como imagem, se desdobra em várias coisas. Essa ideia não está no imaginário da maioria das pessoas porque estamos muito acostumados com o imediato da comunicação.

Para Domingos Guimaraens, artista cuja obra cinco foices cujas pontas formam a palavra corte está na exposição, defende a ideia de que a poesia visual brinca com a relação entre o que é visto e o que é lido.

Muitas vezes, as imagens revelam demais. Já a palavra tem um quê de mistério que deixa as coisas interessantes. Por exemplo, se você faz uma descrição da mulher mais linda do mundo, a imagem vai impor um padrão. Já as suas características escritas deixam essa ideia mais aberta a subjetividades diferencia Guimaraens. A poesia visual joga com esses dois lados: quando eles se encontram, o contraste fica interessante.

A projeção em vídeo que integra a exposição, do artista paraense Armando Queiroz, é um bom exemplo do uso das tecnologias digitas em poemas visuais. Intitulada Dissolução do ego, seu poevídeo mostra um comprimido efervescente com a palavra ego escrita que, ao ser diluído, vai soltando as letras.

As tecnologias digitais ajudam muito a integrar as outras. elas ensinam que precisam dos conteúdos para poderem trabalhar a coisa em si opina Barja.

Engana-se, entretanto, quem acha que a união entre os dois elementos é algo contemporâneo. Em seu manifesto contra uma poesia de expressão, subjetiva e hedonística , os concretistas buscavam instituir uma arte simples e concisa como exemplifica com perfeição o clássico poema de Augusto de Campos, em que palavras luxo formavam outra palavra, lixo e não há nada além disso. Tais preceitos, que formam uma das correntes estéticas mais importantes da língua portuguesa, não derrubaram versos, rimas, ritmos e expressividade. O que não significa que os ideais concretistas tenham se perdido. Muito pelo contrário.

Há algumas coisas que nós consideramos novidades, mas que existem desde a protoimagem da arte. Por exemplo, há poemas visuais de três séculos antes de Cristo contextualiza o curador. Isso não significa que poesia visual seja algo ultrapassado.