Artista cubano une carteiras

Isabela Fraga*, Jornal do Brasil

CURITIBA - Imagine entrar em uma sala de aula com carteiras, mesas, quadro-negro e até vaso de plantas suspensos por remos de quase dois metros de altura. A atmosfera é, sem dúvida, onírica, e as mais variadas sensações acometem o visitante, seja de estranhamento, incredulidade, sentimento de pequenez ou questionamento. Nas paredes, há desenhos de outros objetos comumente encontrados em uma sala de aula todos eles, claro, também suspensos por grandes remos. Apenas um aluno desenhado, sem rosto, assiste à aula sem professor.

Assim é a obra do artista plástico cubano Kcho exposta na Bienal Ventosul, em Curitiba, que acontece até o dia 11 de outubro na capital paranaense. No quadro-negro dessa sala, o desenho de um mapa-múndi entrecortado por linhas e a frase aprendendo os caminhos do homem fazem clara referência aos deslocamentos e migrações, temas centrais das instalações, pinturas, litogravuras e qualquer trabalho do artista. Kcho é considerado pela curadora da Bienal, Leonor Amarante, um dos maiores artistas cubanos contemporâneos. Seus remos, barcos e outras referências marítimas estão expostos em museus e galerias de todo o mundo, do MoMA até o SMAK, museu de arte contemporânea na Bélgica. Em Havana, onde vive, Kcho também tem todo o ambiente de uma casa suspenso por remos. Ao contrário daqueles utilizados na sala de aula em Curitiba, entretanto, os de Havana são usados, conseguidos pelo artista após uma peregrinação pela costa cubana.

Os remos desta sala têm que ser novos porque o conhecimento é novo argumenta Kcho . O simbolismo dessa suspensão é plural. Significam a possibilidade de crescer, de sonhar, o movimento e o deslocamento possibilitados pela educação. A escola é uma porta que se abre ao homem.

Todos esses significados têm total relação com o tema da Bienal a água e deslocamentos no mundo mas isso, para Kcho, não é o mais importante, assim como o fato de ser cubano tem um sentido menor perto do significado universal por ele proposto. Sua obra preferida, por exemplo, chama-se El camino de la nostalgia ( O caminho da nostalgia ), e é um píer, retirado de um porto de verdade, remetendo à partida, à viagem e à memória.

Em uma das paredes da sala, a frase escrita Mais respeito, menos violência corrobora a hipótese educacional da obra. As cadeiras a quase dois metros de altura dificultam o alcance, é possível inclusive passar por debaixo delas. É como se o espectador tivesse bebido da garrafinha da Alice de Lewis Carroll e tivesse encolhido de repente. Isso significa que a educação é inalcançável?

Deve-se lutar pela educação, ela é uma conquista explica Kcho. Ao se entrar na sala, a referência ao olhar de criança também é claro, e muito espectadores se sentem apequenados. Isso é bom, pois nunca devemos nos sentir grandes demais.

A pluralidade de sentidos, sensações e interpretações provocadas pela obra de Kcho são, de fato, a maior intenção do artista. Se, para ele, o remo significa um sonho, esse significado pode ser outro para outro visitante ou artista.

A arte é um livro aberto, e o meu objetivo é despertar sentidos, causar o questionamento, a pergunta, a crítica.

Assim como o deslocamento, a água é predominantemente um elemento referencial no trabalho de Kcho. Mas não são paisagens oceânicas ou naturais que fazem essa ligação, algo que se pensaria naturalmente dado o fato de que Alexis Leyva ( Kcho veio do nome que seu pai, carpinteiro, teria lhe dado não fosse a interferência da mãe, e significa pedaço ) nasceu na pequena Isla de la Juventud, de Cuba. Ele é ilhado duas vezes , como definiu Leonor Amarante.

A idéia de trabalho está presente em muitas de suas obras, por meio do que o artista chama de produtos da criação humana , como os remos´e barcos utilizados. Embora são seja nem de longe o único sentido apercebido ao observar uma obra do artista, o teor político, mais ou menos direto, está sempre lá.

Toda arte é política, e ela vem se tornando cada vez mais acredita o cubano.

Na frente da mesa do professor dessa sala de aula singular, uma mesa está no chão e um dos remos que a sustentava no alto está quebrado. É a consciência de que, apesar de tudo, a violência existe. Ou, nas palavras do próprio artista, São as coisas feias que acontecem no mundo .

Alto, grande e de voz grave, Kcho é percebido de longe. Essa imagem é contraposta ou equilibrada quando ele conta sobre sua maior influência ou fonte de admiração: Michelangelo.

Para mim, a arte é a ligação entre os homens. Isso é o mais importante. E, na Capela Sistina, Michelangelo sintetiza isso da melhor forma, quando os dedos se encontram destaca Kcho, sobre a Criação de Adão, afresco do artista italiano no teto da capela.

*Isabela Fraga viajou a convite da Bienal Ventosul