Tudo em família: Marina e Domingas Person agora no teatro

Carlos Helí de Almeida, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Com carreiras paralelas na TV, as irmãs Marina e Domingas Person se jogam no teatro profissional

Houve pelo menos um momento durante os ensaios de Ménage que os ânimos entre a diretora Marina Person e sua irmã, a atriz Domingas Person, ameaçaram atropelar os limites entre o profissional e o familiar. A peça, que sobe o tablado da sala multimídia do Espaço Sesc, em Copacabana, a partir do dia 14, marca a estreia no teatro de Marina, VJ da MTV e autora do documentário Person (2007) sobre a obra do pai, o cineasta Luís Sérgio Person (1936-1976) e de Domingas, repórter de TV.

Eu estava cansada, esgotada, a ponto de perder a cerimônia mesmo, e disse para ela: Dá para me tratar como diretora e não como irmã? . Mas, por incrível que pareça, foi a única ameaça de estresse entre nós. Até achava que seria mais difícil, por causa da intimidade, mas a gente conseguiu separar as coisas avalia Marina, de 40 anos.

Caminhos paralelos

Montado a partir de textos que falam de diferentes aspectos dos relacionamentos amorosos, o espetáculo carrega um outro tipo de ineditismo: é a primeira vez que as irmãs, formadas pela ECA (Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo) e que dividem a mesma profissão e herança artística, trabalham juntas. Ménage iniciou carreira ano passado, em São Paulo, a cidade natal de Marina e Domingas, e foi encenada no Festival de Curitiba, mês passado, antes de chegar ao Rio.

Seguimos caminhos independentes, paralelos. Na TV, falamos para públicos diferentes teoriza Domingas, 37 anos, que já passou pelo Telecine, Canal Brasil e Multishow. Além disso, a Marina sempre fez muitas coisas ao mesmo tempo, está sempre ocupada, cuida dos filmes do papai, faz palestras, desenvolve projetos em cinema. Não que a gente não tivesse tentado fazer algo juntas antes. Mas agora um projeto comum se concretizou.

O teatro não é um arte tão estranha assim às Person. Seus pais foram os fundadores do Auditório Augusta, casa de espetáculos de vanguarda da capital paulista, nos anos 70. Foi lá que as duas, ainda muito crianças, tiveram sua primeira experiência teatral, em um montagem de Os saltimbancos, musical escrito por Chico Buarque de Hollanda.

Acho que eu tinha uns 7 anos e a Marina uns 10 anos. Cresci nas coxias; a minha irmã passava mais tempo na escola lembra Domingas, que começou a pensar no teatro como uma carreira paralela há três anos. Estava um pouco insatisfeita com o meu trabalho na televisão, achava que deveria estudar teatro a sério e entrei para o Centro de Pesquisa Teatral (CPT), do Antunes Filho. Mas a TV ainda é o meu ganha pão, a gente sabe como é viver de teatro no Brasil.

Foi no CPT que Domingas conheceu o seu atual companheiro, o ator Ivo Müller, seu parceiro de cena em Ménage. O casal desenvolveu todo o projeto e convidou Marina para dirigi-lo.

A Marina é muito objetiva, vê as coisas dentro de um quadro geral, tem tudo a ver com direção mesmo. Eu e o Ivo contribuímos com a nossa preocupação com a interpretação, com os detalhes justifica a atriz. O Ménage é um projeto muito pessoal, que cabe dentro de nossas possibilidades. Estávamos cansados de esperar o reconhecimento alheio, de ser chamado para o projeto de outras pessoas.

A peça é formada por três textos curtos. Em Rex, do americano Joe Pintauro, Domingas e Ivo interpretam um casal rico que enfrenta questões domésticas à mesa. Já em Fogo, escrito por Ivo e Guilherme Solari, encarnam marido e mulher que trocaram o sexo pelo consumo. Em Tudo bem, do também americano David Ives, eles vivem as angústias e absurdos de um primeiro encontro.

A ideia era pegar textos de autores contemporâneos sobre um tema eterno, o relacionamento a dois resume Domingas. É um assunto que pode ser entendido em qualquer lugar do Brasil, independentemente de idade, sexo, ou origem social.

O formato compacto da produção também facilita excursões pelo país: o cenário milimalista, o elenco, a diretora e dois técnicos cabem em uma van. O que ainda assusta Marina são as inconstâncias da interpretação teatral.

Enfrentar o público todas as noites é um elemento de angústia avalia a diretora estreante, que prepara um novo longa-metragem sobre adolescentes paulistas nos anos 80. Teve uma vez que eles esqueceram um pedaço do texto e eu me senti muito mal. É muito diferente de trabalhar com cinema, quando você registra a performance ideal e manda para o laboratório.