Aos 80, Carlos Fuentes lança novo romance 'A vontade e a fortuna'

ALVARO COSTA E SILVA, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O pessoal da editora Rocco andava de cabelo em pé atrás do escritor Carlos Fuentes, que acertara uma rodada de entrevistas com a imprensa brasileira para divulgar seu mais recente romance, A vontade e a fortuna. É que o homem simplesmente desaparecera no ar. Filho de diplomata, nascido na Cidade do Panamá (onde seu pai servia), mas mexicano até as raízes dos cabelos brancos, Fuentes que divide o ano entre temporadas na Cidade do México e Londres tornou-se um cidadão do mundo, ou melhor, um cidadão que dá a volta ao mundo, fazendo palestras e conferências, participando de congressos e seminários, dando aulas em universidades, sendo a atração de feiras e festivais literários este ano sua presença na Flip chegou a ser anunciada, mas ele deu bolo.

É a proverbial vitalidade de Carlos Fuentes, conhecida de quantos travam contato com o escritor, a qual segue firme e sem dar mostras de abandoná-lo.

A essa altura, mantém o rigor de sempre, tanto na vida como na escrita. Conheço o Fuentes há mais de 20 anos. E ele não muda. Precisa escrever como quem precisa respirar. E manter suas posições com um rigor e uma integridade invejáveis conta Eric Nepomuceno.

Em novembro o escritor completou 80 anos e, justamente para marcar a data, e em meio a uma grande celebração que se estendeu por 21 dias, lançou o romance que agora se publica entre nós.

Ah, Fuentes enfim respondeu aos faxes da Rocco. Estava dando um pulo um Nova York, 'para rever alguns amigos', e de lá conversou, por telefone, com o Ideias:

Eu me sinto muito melhor com meus 80 anos do que me sentia aos 15. Escrevo muito, sim, é minha vocação, passo quatro, cinco horas escrevendo todos os dias. Acho isso inteiramente normal.

Desde sua estreia, com os contos de Los días enmascarados, de 1954, publicou quase 50 livros, entre ficção e ensaio, com destaque para o primeiro romance, La región más transparente, de 1958, que imediatamente o pôs entre os principais autores do chamado boom latino-americano, ao lado de Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Pena que La región más transparente não está traduzido no Brasil.

Que curioso isso! Peça que o traduzam, por favor solicita Fuentes.

Em compensação, a principal parte de sua obra está em catálogo na Rocco: os romances Gringo velho, Cristóvão Nonato, A morte de Artêmio Cruz, os ensaios de Eu e os outros e Geografia do romance.

Algumas de suas obras, pelo tamanho alentado e abrangência de temas Cambio del piel, Terra nostra, Os anos de Laura Díaz, inclusive o recente A vontade e a fortuna são classificados por críticos como 'novela total', denominação com o qual o escritor não concorda.

Uma novela total seria uma novela perfeita, uma novela perfeita seria uma novela impossível... Para uma novela ter futuro, é preciso que ela tenha ira e sangue, e que seja imperfeita. Uma novela perfeita seria uma novela de mármore. Seria um grande monumento, mas os monumentos não têm movimento, não andam, não vão a lugar nenhum defende o autor.

À maneira das Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis reconhecida admiração de Fuentes e Pedro Páramo, do mexicano Juan Rulfo, A vontade e a fortuna é narrado por um morto. Ou melhor, pela cabeça decapitada do personagem Josué Nadal, 'perdida como um coco às margens do Oceano Pacífico (...) a cabeça cortada número mil no atual ano no México. Sou um dos 50 decapitados da semana, o sétimo do dia de hoje e o único durante as últimas três horas e 15 minutos'.

Paradoxalmente, é um livro pleno de vitalidade em suas mais de 400 páginas, a misturar ressonâncias bíblicas (Caim e Abel), filosóficas (Santo Agostinho, Nietzsche) e a violenta realidade do México de hoje.

Só este ano o narcotráfico já foi responsável por mais de 3 mil mortes denuncia o escritor.

Mas, para o mal e para o bem, é nesta vitalidade que está o perigo. Ou o fracasso. Quando se insiste em falar de vigor ou capacidade de produção que necessariamente não implicam em boa literatura alguma coisa anda errada. A real é que A vontade e a fortuna não tem a qualidade esqueça a vitalidade de outras obras do autor, notadamente as primeiras.

Carlos Fuentes nunca esteve mais balzaquiano no que se refere ao desleixado tratamento ficcional. No meio do livro, sem mais nem para quê, abre espaço para atacar a política americana e a invasão do Iraque (!?).

Noutro trecho, dá uma de crítico de moda: 'Os jovens se vestem como antes se vestiam os mendigos ou os trabalhadores ferroviários: calças jeans rasgadas, sapatos velhos, jaquetas também jeans, camisas com anúncio e lemas (Beije-me, Preciso de namorada, A perda do Texas, Gosto de foder, Sou o abandonado, Meus torresmos troam, Mérida Metrópole), camisetas sem mangas e bonés de beisebol postos ao contrário (...) Mais lamentável ainda era o espetáculo dos homens e mulheres maduros, para não dizer velhos, que assumiam uma juventude emprestada com os mesmos bonés esportivos, bermudas e tênis Nike'.

Aqui é preciso dizer que Carlos Fuentes veste-se de maneira impecável, sem rugas na camisa.

Menos mal que, leitor voraz, está atento aos novos autores mexicanos. Cita Álvaro Enrigue, Jorge Volpi, Ignacio Padilha, Cristina Rivera Garza como aqueles a que se deve prestar atenção. Sobre Mario Bellatin, atração da última Flip, é categórico:

É muito bom autor. Escreve novelas fortes, duras, exigentes e cruéis. Gosto muito dele.

No entanto, segue sem ler Roberto Bolaño, morto em 2003 e cuja obra tem estreita ligação com o México. Muito questionado sobre as qualidades do chileno, Fuentes costuma desconversar, dizendo que reserva um fim de semana de fortes chuvas para poder lê-lo. Agora sai-se com outra:

Mantenho distância das homenagens fúnebres.