Obra do cineasta e etnólogo ean Rouch é recuperada e reavaliada

Bolívar Torres e Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO - Exaustivamente citada por suas inovações, a obra do cineasta e etnólogo francês Jean Rouch (1917-2004) é pouco conhecida. No Brasil, mostras pontuais apresentaram alguns de seus títulos mais reconhecíveis, como Eu, um negro (1958), A pirâmide humana (1961) ou Pouco a pouco (1969), exemplos de suas incursões no chamado cine-transe (mistura de documentário com artifícios de encenação, inicialmente classificada de cinema verité) e da etno-ficção. Há, porém, uma série de outras facetas que permanecem obscuras para o público, como suas realizações puramente etnográficas nas quais acompanha rituais e costumes de tribos africanas e mesmo suas obras de ficção. A mostra Jean Rouch, que começa neste sábado no Instituto Moreira Salles, é uma oportunidade única para se descobrir a filmografia quase completa do diretor, finalmente mostrada em todas suas vertentes. Ao todo, foram selecionados, entre curtas, médias e longas, 91 filmes restaurados 77 de Rouch, e 14 sobre ele que serão apresentados até agosto.

Não é apenas o Brasil que não conhece com profundidade a obra de Rouch avalia o filósofo e ensaísta Mateus Araújo, curador da mostra em parceria com o antropólogo Andrea Paganini. Poucas pessoas no mundo a viram na sua extensão, até porque algumas cópias são difíceis de conseguir. Rouch nunca se preocupou com a preservação delas. Esta mostra é um milagre. Será a mais ampla já realizada fora da França.

Ideia concebida em Paris

Diretor da programação de cinema do Instituto Moreira Salles e um dos responsáveis pela mostra, José Carlos Avellar conta que o projeto surgiu como um desejo de investigar a contribuição do documentário francês na história do cinema mundial. Chris Marker e Jean Rouch despontavam como ícones. Quando Araújo sugeriu o projeto, montava, em Paris, um evento sobre o cineasta e dedicava-se a uma pesquisa em que analisava a relação de Glauber Rocha e Rouch.

Foi uma coincidência enorme o encontro de vontades entre o IMS e o Mateus de realizarmos esse projeto lembra Avellar. Rouch sempre elogiou muito o trabalho de Glauber, o Cinema Novo e os documentários brasileiros. Mas não só o cinema nacional deve tributo. Godard, Truffaut e boa parte da Nouvelle Vague são confessos admiradores de Rouch. A partir dele, entenderam que a câmera devia se movimentar e que, para isso, era necessário um equipamento ágil e leve. Filmes como Babatu, os três conselhos (1975), Cocorico! Monsieur poulet (1974), A caça ao leão com arco (1958-1965) e Um leão chamado Americano (1968) são exemplos de pérolas que nunca assistimos.

Na programação está 90% da filmografia do autor (o restante é impossível de exibir devido ao mau estado das cópias). Entre as raridades, obras-primas como O Dama de Ambara: encantar a morte (1974-1980), sobre rituais dos Dogons, no Mali povo que Rouch visitou diversas vezes durante toda sua carreira, dos anos 40 até sua morte (sua afinidade e convivência com eles era tão forte que ganhou uma cerimônia fúnebre do grupo com o status de sábio ). Rodado a partir do estudo antropológico de Marcel Griaule (Rouch dizia ter filmado com o livro na mão ), é um registro importante da sociedade dos Dogons.

Rouch não inventou o filme etnográfico, que existia desde os primórdios do cinema, mas sistematizou práticas e deu a elas feições modernas, introduzindo elementos modernos explica Araújo.

Graças à amplitude da mostra é possível analisar a evolução de Rouch. Desde seus primeiros filmes etnográficos, que se limitavam a registar os costumes das sociedades, aos projetos mais ambiciosos esteticamente, nos quais o cineasta ganhava consciência de seus meios. Surgem, em contraposição às imagens meramente descritivas, técnicas complexas de reencenação, pesquisa sociológica e psicodrama, além de uma trilha sonora cada vez mais poética.

Aos poucos, o realizador foi deixando o posto de mero observador da realidade. Retirou a câmera do tripé e passou a entrar em cena, caminhando ao lado dos personagens. Elementos hoje incorporados pela atual produção de documentários e ficção.

O narrador inserido na situação captada é um grande salto para o cinema mundial pontua Avellar.

Rouch provoca reações realizando não uma busca pela verdade, mas da realidade do momento filmado, a qual não se repete fora do filme.

O que ele fazia era resultado de um transe cinematográfico, o chamado cine-transe. Ele se deixava guiar, como num ritual de candomblé, pela realidade capturada. Ela tomava conta e passava a controlar o seu filme. Ele passava a não ser dono do que estava fazendo. Era tudo determinado pelas circunstâncias.

Avellar destaca Eu, um negro, Jaguar (1954-67), Pirâmide humana (1959) e Crônicas de um verão (1960) como as obras-primas do autor.

Nesses trabalhos há um extenso trabalho como antropólogo. São importantes como uma espécie de reviravolta da narrativa cinematográfica. Crônicas de um verão é o primeiro filme a ser realizado com uma câmera silenciosa associada a um gravador para captação do áudio. A leveza desse protótipo pioneiro se assemelha e antecipa o que hoje temos à disposição hoje com a mobilidade das câmeras digitais.