Livro recupera a gravação do disco histórico "Clube da Esquina"

Ricardo Schott, Jornal do Brasil

RIO - Mina de ouro para se conhecer momentos históricos de artistas, o acervo de fotos pessoais não costuma ser passado às mãos de jornalistas e pesquisadores sem certas doses de tensão. A carta branca e o acesso livre que a pesquisadora e designer gráfica Andrea Estanislau recebeu dos músicos na hora de realizar seu livro Coração americano 35 anos do álbum Clube da Esquina (Prax Editora) surpreendem. O livro, a partir de entrevistas e de textos assinados por compositores como Milton Nascimento, Tavito, Márcio Borges, Ronaldo Bastos e Chico Amaral (letrista do Skank), reconstitui o projeto do álbum de Milton e Lô Borges desde seu início. A publicação inclui ainda mais de 70 fotos raras, amadoras ou assinadas por nomes como Mario Luiz Thompson, Cafi e Ronaldo Gorini, que chegaram a passar sete anos com a autora, enquanto ela terminava o projeto.

Houve uma confiança no trabalho que eu nem imaginava. Sou designer, não sou do meio musical nem jornalístico. Fui procurando de contato em contato e encontrei todas as portas abertas, todo mundo ávido para falar do disco recorda Andrea Estanislau. Quando só tinha um projeto, procurei primeiro o Beto Guedes e depois fui atrás dos outros. Todos apostaram na minha paixão pelo disco e pela música, justo o que me motivou a começar.

Márcio Borges foi referência

Coração americano estava planejado para sair em 2007, durante as comemorações de 35 anos do disco duplo mesmo com o atraso, o título não foi alterado. Apesar de já haver um livro bastante detalhado relatando histórias do Clube, Os sonhos não envelhecem, assinado por um dos artífices da MPB mineira dos anos 70, Márcio Borges, Andrea procurou focar apenas na gravação do disco de 1972 desde a época em que Milton, Lô Borges, Beto Guedes e músicos como Luiz Alves (baixo) e Robertinho Silva (bateria) ensaiavam numa casa no então deserto bairro de Piratininga, em Niterói.

O livro do Márcio foi uma das minhas referências, mas é um romance dele diferencia a autora. Percebia que os fãs do disco sentiam falta de um livro com textos, com fotos. Muito pouco se publicou a respeito dessa época. Procurei focar no disco, até porque o movimento Clube da Esquina surgiu a partir dele. Não havia um clube, os músicos se reuniam na rua em Belo Horizonte. Depois do disco, a expressão passou a denominar o movimento de músicos mineiros.

Envolvido há cinco anos com o museu virtual do Clube da Esquina (que pode ser acessado em www.museudapessoa.net/clube), Márcio também aproveita o momento para relançar Os sonhos não envelhecem. Além de ser um dos entrevistados, fala sobre o disco e o período o texto Os anos voam, publicado no livro. E diz que a iniciativa de Andrea é uma espécie de filha de seu projeto.

Cedemos muito material para ela, inclusive muitas entrevistas, fotos antigas, etc. Havia toda uma história oral do Clube, que só está vindo à tona graças ao site e ao livro dela explica o letrista.

Dos grandes achados do livro, as fotos do fotógrafo carioca Ronaldo Gorini, que cobriu os ensaios do disco, em Piratininga, foram produzidas quando ele ainda estava começando carreira, nunca tinha sido publicadas e jazia por mais de 30 anos no estúdio do fotógrafo que captou o clima dos ensaios e os momentos de relaxamento da equipe. Quatro décadas depois, foi encontrado por Márcio e Andrea.

Aquilo era um momento mágico, inacreditável recorda Gorini, que conheceu a galera por intermédio do letrista Ronaldo Bastos, seu amigo, e que até hoje alegra-se ao falar do clima local Nos anos 70, Piratininga era um lugar vazio. A casa era um barato, tinha um terraço ao ar livre. O dia inteiro tinha gente tocando.

Por não ser jornalista (o livro nasceu justamente de sua conclusão de curso como designer na Universidade Estadual de Minas Gerais), Andrea contou com consultorias ao longo do projeto. A apuração foi concluída com a ajuda do jornalista mineiro Rodrigo James, do programa musical Alto falante, exibido pela Rede Minas. Durante o processo, entrevistou todos os nomes envolvidos com a cena.

Alguns, como o próprio Milton, foram mais difíceis de achar, mas todos quiseram falar recorda. O Márcio me deu uma entrevista emocionante. Ele estava muito triste por causa de uma doença da mãe, que morreria dias depois, mas falou sobre toda a gravação.

Emocionada até hoje com o disco que conheceu na adolescência, Andrea (que lança Coração americano oficialmente no Festival de Inverno de Ouro Preto e Mariana, cujo tema para 2009 será o disco, com palestras na sexta e no sábado) diz que Clube da esquina tem muito a ensinar a novos produtores.

Hoje grava-se tudo à distância. Naquela época era todo mundo junto, ao vivo, sentindo a mesma emoção. As pessoas iam ao estúdio para assistir à gravação, só porque era o Milton que estava gravando recorda. Por isso o nome do meu livro é Coração americano. Percebi que, antes de tudo, o que unia aquele pessoal era o amor que todos tinham um pelo outro, a liberdade, o idealismo.