João Bosco retoma a parceria com Aldir Blanc em novo CD

Nelson Gobbi, Jornal do Brasil

RIO - Eu moro dentro da casca do meu violão . Impresso no verso do encarte do novo álbum de João Bosco, o verso de Sonho de caramujo uma das canções que marcam a volta da parceria com Aldir Blanc norteia Não vou pro céu, mas já não vivo no chão. Das 13 faixas do disco, cinco são conduzidas apenas pelo instrumento, tocado de forma primorosa pelo cantor e compositor. A distinção às cordas de nylon imprime economia na interpretação: os característicos vocalises ainda estão presentes, embora reduzidos em prol de versos que primam pela elegância. O diálogo musical se estende ao time de craques que acompanham Bosco nas demais faixas: Ricardo Silveira (guitarra e violão), Jorge Helder (baixo), Armando Marçal (percussão) e Jurim Moreira (bateria).

A leitura de um Rio poético mas não idealizado, muito presente em Malabaristas do sinal vermelho (2003), seu último álbum de estúdio, é retomada em novas parcerias com o filho, Francisco Bosco: em Perfeição Copacabana ganha contornos oníricos e na belíssima Desnortes a citação a Caymmi ( É doce, irmão, morrer no mar ) destaca o crepúsculo emoldurado pelo Dois Irmãos e o Corcovado. O bate-bola familiar rende ainda os réquiens amorosos Tanto faz e Alma barroca, além de uma pequena joia, Tanajura, cuja força das palavras suprime o sentido dos versos. Assim também é Jimbo no jazz, parceria com Nei Lopes, que, à maneira de Chiclete com banana, de Jackson do Pandeiro, embola ritmos nacionais e estrangeiros a fim de criar um amálgama com sotaque negro.

Com Carlos Rennó, Bosco canta o amor à moda antiga, exaltando uma musa inatingível em Pintura, ou ao fazer uma ode a uma paixão do passado, em Pronto pra próxima. A desilusão amorosa também bate ponto em Ingenuidade, de Serafim Adriano, único tema não autoral do disco.

A volta da dupla de compositores mais celebrada da MPB, anunciada desde 2004, rende, além da citada Sonhos de caramujo da qual também saiu o verso que dá título ao CD outras três belas obras. Partindo da atração dos opostos, Bosco e Blanc recriam as idas e vindas amorosas de outros tempos com Mentiras de verdade e Plural singular. Mas é em Navalha que a dupla realmente tabela como se jamais houvesse interrompido seu processo criativo. Os versos enxutos, deliciosamente sincopados pelo violão de Bosco, criam imagens dignas das melhores obras criadas pelos dois, na qual a Paixão de Cristo se converte na dor de um amor que condena e salva ao mesmo tempo.