Indicado ao Grammy, José Roberto Bertrami faz raro show em Niterói

Leandro Souto Maior, Jornal do Brasil

NITERÓI - É uma unanimidade entre os feras da música instrumental brasileira: o exterior é o caminho ideal para quem quem brilhar. O pianista José Roberto Bertrami faz coro. Ele está prestes a sair em turnê pela Europa, em setembro, com o celebrado (mais no mercado internacional que no brasileiro, vale registrar) grupo Azymuth, que cofundou em 1970, e, recém-indicado para o Grammy Latino por seu mais recente lançamento, o CD Aventura - José Roberto Bertrami and his modern sound, faz rara apresentação por aqui, para apresentar o disco como qual vislumbra abocanhar a cobiçada estatueta. Ele é a atração de abertura do festival Piano Brasil, no Teatro da UFF, em Niterói, no dia 17. O evento traz os também virtuosos do instrumento Marcos Ariel e Kiko Continentino.

O álbum está esgotado no mundo inteiro, é inacreditável exulta Bertrami, num misto de surpresa e celebração. É o repertório do álbum que vou apresentar neste festival, à frente de um quinteto. Chamei o pessoal do Azymuth para uma participação, me aproveitando até do fato de o nosso baixista, o Alex Malheiros, ser morador da cidade. Quem pretendo chamar também é o (guitarrista) Hélio Delmiro.

O gostinho da disputa pelo Grammy (este ano celebrado em 5 de novembro, em Las Vegas) ele sente pela segunda vez. Mas há diferenças.

Nos anos 80, o Azymuth concorreu. É uma premiação importante para a carreira, mas, veja só, não há garantias pondera. O Laurindo de Almeida ganhou seis Grammys de jazz nos anos 60 e ninguém sabe disso. É um dos violonistas brasileiros mais conhecidos nos Estados Unidos e praticamente desconhecido no Brasil.

Em suas empreitadas pelas terras estrangeiras, o pianista visitou todos os continentes e produziu arranjos para nomes que antes só conhecia pelos discos importados, que adquiria com muito custo fazem parte da lista George Duke, Sarah Vaughan e Joe Farrell. O pianista garante que o sonho não é impossível. Costuma dizer que o 'trem' que leva os bons instrumentistas brasileiros ao exterior está passando ao alcance de quem se dispuser a pegá-lo.

As oportunidades estão aí. Aqui no Brasil é muito difícil consegui-las. Lá fora, com o Azymuth, após sermos aplaudidos de pé, costumamos perguntar nos shows: Tem algum brasileiro na plateia? . E, para nossa decepção, raramente aparece algum. Fico indignado com o pouco caso dos brasileiros com a música instrumental.

Linha do horizonte

Apesar de ser um grupo predominantemente sem vocais, o Azymuth emplacou, ainda nos anos 70, um raro voo vocal. Linha do horizonte foi até trilha de novela da Globo e se tornou o maior se não o único hit do grupo.

É difícil sair de um show sem tocar essa música assume. Sempre que vai chegando ao final, o povo começa a pedir, daí eu já separo aquele timbre característico de Fender Rhodes e me preparo para um final apoteótico.

Três dias dedicados às teclas

Idealizado pelo produtor musical Paulo Renato Rocha (ex-diretor artístico do saudoso Jazzmania e autor também do consolidado Projeto Cordas, evento anual que reúne mestres da guitarra e do violão), o Piano Brasil tem sua primeira edição programada para os próximos dias 17, 18 e 19. Como sugere o título, o projeto se propõe trazer ao público grandes pianistas e tecladistas brasileiros.

O Brasil é muito rico musicalmente, não deve nada a nenhum pais do mundo defende o produtor. A oferta é tão generosa que fica fácil conseguir um punhado de nomes relevantes para um festival como esse, seja focando em qualquer instrumento.

Depois da estreia, com o lançamento do novo CD de José Roberto Bertrami, o evento segue com o mineiro Kiko Continentino. O músico da banda de Milton Nascimento sobe ao palco com o virtuoso baixista Paulo Russo para tocar clássicos da bossa nova e do jazz. No encerramento, Marcos Ariel. Com 19 discos gravados, o carioca mostra o CD Piano com Tom Jobim, em que faz uma homenagem ao maestro.

Piano Brasil

Teatro da UFF, Rua Miguel de Frias, 9, Icaraí, Niterói (2629-5030). Sexta-feira, dia 17, às 21h José Roberto Bertrami. Sábado, dia 18, às 21h Kiko Continentino. Domingo, dia 19, às 20h Marcos Ariel. R$ 24.