Festa Literária de Paraty abre espaço para temas contemporâneos

Agência Brasil

RIO - Em dívida com a poesia, a Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) começa quarta-feira e vai homenagear, em sua sétima edição, o poeta pernambucano Manuel Bandeira (1886-1968). O único poeta a quem a Flip rendeu homenagem foi Vinícius de Moraes (1913-1980) na primeira edição, em 2003.

A programação oficial, que inclui 34 romancistas, ficcionistas, historiadores, jornalistas e quadrinistas, promete, além do resgate e da valorização da obra de Bandeira, reflexões sobre ciência, religião, política e direitos humanos nas ruas da histórica Paraty. - Fazia tempo que a poesia não tinha destaque na Flip. Entre os poetas, Bandeira é um dos primeiros que aparece - explicou o curador da festa, Flavio Moura.

O ineditismo é a marca mais forte da sétima edição da festa. Abrindo a programação oficial, na quinta-feira, quatro representantes da nova geração discutem a produção de quadrinhos na mesa Novos Traços. - A Flip sempre procura dar destaque a escritores jovens, que ainda não têm carreira consolidada e em quem aposta. Este ano, o incentivo vai não apenas para escritores, mas para quadrinistas novos - disse Moura.

No mesmo dia, haverá outra atração inédita. No ano em que se completam os 200 anos de nascimento de Charles Darwin e os 150 anos de A Origem das Espécies, a Flip receberá, pela primeira vez, um cientista. O biólogo norte-americano Richard Dawkins deve levantar a bandeira do ceticismo na mesa Deus, um Delírio, título de uma de suas obras.

Também no campo da não-ficção, dois autores chineses vão debater a história recente da China e as restrições às liberdades naquele país. A mesa China no Divã será dividida entre Ma Jian, que relembra o massacre da Praça da Paz Celestial, há exatos 20 anos, no livro Pequim em Coma, e o jornalista Xinran, autor de Testemunhas da China, com relatos da revolução cultural dos anos 60. - A presença de Ma Jian e Xinran é um dos destaques, já que a Flip nunca havia recebido autores chineses - comemora o curador.

Na sexta-feira, o jornalismo é o destaque da programação oficial e paralela. A profissão de repórter será abordada por Jon Lee Anderson, autor da principal biografia de Che Guevara, que estará na Casa da Cultura. O local que abriga eventos paralelos também receberá o escritor Milton Hatoum, o crítico literário Francisco Foot Hardman e a professora Walnice Nogueira Galvão para uma discussão sobre a obra de Euclides da Cunha (1866-1909), autor de Os sertões. Ainda sobre jornalismo contemporâneo, o norte-americano Gay Talese participa, no palco oficial da festa, da mesa Fama e Anonimato.

No mesmo dia, Chico Buarque e Milton Hatoum dão suas visões sobre o Brasil na mesa Seqüências Brasileiras, uma das mais disputadas da Flip. Entusiasta da festa, Chico lançou recentemente Leite Derramado, em que repassa a história do Brasil a partir das memórias do narrador, que, do leito de morte, desfia passagens de apogeu e declínio de sua família por meio de quatro gerações.

No sábado, as atenções estarão voltadas para o português António Lobo Antunes, autor de Memória de Elefante, que retrata sua experiência no exército português na guerra colonial em Angola. Lobo Antunes é um dos poucos convidados da Flip com direito à exclusividade no palco. Em vez de dividir a mesa literária, será apenas entrevistado. Este é um dos argumentos do curador Flavio Moura para uma programação mais concisa, com 34 autores contra 41 em 2008.

Moura rebate com um forte argumento as polêmicas e suspeitas lançadas sobre uma programação menor. Antes porém, taxativo, apressa-se em dizer que a crise econômica não teve nenhuma influência na programação. Ele diz que pode ter havido problemas para captação dos recursos, mas não houve na formação das mesas. - A crise afeta todo mundo, é uma questão séria. Mas a programação não foi afetada em nada. Ela está um pouco menor, porque você tem que priorizar o tempo para os autores falarem. Sempre que possível, tentei enxugar as mesas ao máximo. A gente quer evitar que o autor viaje para a Flip e tenha pouco tempo para falar com o público - disse.

A crise, por outro lado, deve levar à 7ª Flip reflexões sobre valores e princípios que moldaram o pensamento ocidental, mas que agora passam por profunda revisão. Ainda sob o impacto da chegada do primeiro negro ao poder nos Estados Unidos, o historiador inglês Simon Schama revisitará a história norte-americana à luz da ascensão do presidente Barack Obama. Schama estará no domingo na mesa O Futuro da América, título de sua mais recente obra.

Flavio Moura reconhece que a presença de historiadores e jornalistas na programação da Flip favorece o debate sobre questões sociais e políticas. - Mas não foi intencional. A Flip nunca se furta a discutir temas que estão na agenda do debate. Ela procura não se pautar unicamente por isso, porque é um evento literário, mas sempre que é possível trazer esse tipo de discussão para a programação, a gente o faz - concluiu.