Jornalista americano lança biografia sobre o colégio de Fidel Castro

Bolivar Torres, Jornal do Brasil

RIO - É uma foto em preto e branco, tirada em outubro de 1941. Aparecem sentados, um ao lado do outro, todos os alunos do corpo estudantil do Colégio Dolores, famoso internato jesuíta de Santiago de Cuba, que preparou os filhos da elite cubana de 1913 até os primeiros anos da Revolução. Entre os 238 meninos de uniforme, perfilados em oito fileiras, os que viveram a época podem reconhecer o rosto de Fidel, o mais famoso estudante da insituição e um dos três irmãos Castro matriculado lá. Tudo que aconteceu em Cuba desde então passou pela figura dele. Mas a história de um país é mais do que a de uma só pessoa. Pensando nisso, o jornalista e escritor americano Patrick Symmes partiu em busca dos ex-alunos do Dolores, numa espécie de biografia coletiva (assim como já havia feito em Chasing Che,que recupera as impressões que Guevara deixou nas pessoas durante sua jornada de motocicleta pela América Latina), desde os exilados pelo mundo, de Miami a Espanha, até aqueles que permaneceram na Ilha, amando ou odiando seu comandante. Rastreando a história de colegas - vivos e mortos - da escola de Fidel, o autor tenta entender os rumos tomados pelo país no último século e os efeitos da Revolução em toda uma geração.

- Eu queria cobrir 100 anos de história cubana em 300 páginas. Todos os alunos que falei estão entre os 70 e 80 anos, e viveram esse periodo. E, claro que, quanto mais histórias e personagens você tem, mais abrangente fica sua abordagem - exlica Symmes, em entrevista por telefone ao Jornal do Brasil. - Eu sempre digo que o livro é sobre todos os que passaram por essa escola, exceto Fidel. Mas não é totalmente verdade, já que todas as histórias acabam sendo sobre "como eu conheci Fidel". Então, é sobre ele também, mesmo que indiretamente.

Não há como fugir do comandante. Como uma "presença fantasma", que o autor diz não conseguir enxergar na já citada foto de 1941, Fidel preenche o livro inteiro, mesmo quando não é citado, da mesma forma como sua presença pode ser sentida em cada canto de Havana ou Santiago. Não por acaso, assim que a velha imagem é mostrada aos ex-alunos exilados, todos se apressam em nomeá-lo "that bastard" ou algum outro nome impublicável; também não por acaso, alguns cubanos que ficaram preferem não chamá-lo por nome algum, com medo de se comprometer. A narrativa conta como Fidel mudou o destino dessas pessoas, ao mesmo tempo em que faz uma radiografia histórica e cultural de Cuba. Analisando a corrupção do governo de Batista, as distorções sociais e a instabilidade política, descreve a inevitabilidade da Revolução.

Na Flórida, Symmes encontra personagens como Lundy Aguilar, um professor de história aposentado da Georgetown University que conviveu cinco anos no colégio com Fidel - e que, mais tarde, já exilado nos EUA, participaria de mal sucedidas tentativas de enviar armas para a resistência anticastrista. As recordações de Lundy e outros alunos traçam um retrato de um preríodo obscuro da vida do governante. É possível ver o jovem Fidel com delírios de grandeza, pedindo numa carta dez dólares ao presidente Roosevelt, além de seu ódio pelos americanos (nos westerns, sempre torcia para os índios) ou sua inclinação pelo fascismo de Mussolini. Mas também se percebe porque se tornou o aluno mais popular do Dolores (e mais admirado por seus professores) graças ao seus talentos intelectuais e atléticos, sua valentia e disciplina inata.

- Ele era o melhor - diz Symmes. - Tinha as melhores notas e era muito ambioso. Desde cedo, queria ser a pessoa mais importante do mundo. Por outrol lado, tenho certeza se algum outro garotos de Dolores assumisse o poder seria diferente. Provavelmente também aplicaria um sistema de governo corrupto e centrado na figura de um homem só.

Lundy, assim como outros ex-alunos de Dolores, são o produto de uma instituição progressista, que embora servisse aos interesses de uma elite social, organizava-se para formar uma elite intelectual (o sistema baseado na disciplina, entrega e confiança pode ser associado ao do Partido Comunista, daí sua enorme influência na formação de Fidel). Selecionava membros de famílias abastadas, como os Baccardis e os próprios irmãos Castro, filhos de um rico fazendeiro, mas também alunos com capacidade e talento. Estava claro, na época, que dali sairia as cabeças pensantes de Cuba, aqueles que iriam comandar o país. Inicialmente, quase todos, por sinal, apoiaram a Revolução e se deixaram seduzir por Fidel, que prometia uma nova constituição e eleições. A maioria, porém, se viu obrigada a fugir do país depois que o ex-colega atrapalhou seus interesses.

Quando chega em Cuba para visitar o país e conversar com os ex-alunos que ficaram, fica clara a alienação que existe dos dois lados, tanto os que demonizam o governo quanto aqueles que aceitam seus desvios. Symmes retrata um povo que se tornou inerte, passivo e conformista de tanto carregar o peso castrisa nas suas costas. Escreve sobre a fome e o autoritarismo e corrupção escondido sob a burocracia (que atrapalham suas próprias pesquisas), mas também aponta os progressos no baixo índice de mortalidade infantil e analfabetismo (novamente um paradoxo, já que os alunos aprendem a ler enquanto bibliotecas particulares são confiscadas por conter leituras "perigosas").

- Não acredito que Cubanos espalhados pelo mundo podem falar propriamente sobre o país - admite Symmes. - Quando eles estão em Cuba precisam se ligar na Revolução e quando estão em Miami precisam se desligar. Tenho muito amor e simpatia pelos exilados porque perderam tanto. especialmente os garotos de dolores. Não era um colegio que ligava para dinheiro e sim para o talento. E esses garotos chegaram nos Estados Unidos ou outros países sem nada e conseguiram se estabelecer, viraram médicos, professores, empresários ou dentistas respeitados.