Uma lei que garante o Peru na rota das turnês

Leandro Souto Maior, Jornal do Brasil

LIMA, PERU - Cena musical do país andino muda com iniciativa do governo, começa a receber grandes shows e mercado pop ganha força

Imagine se a fartura de shows internacionais que mesmo com a crise mundial batem ponto em escala obrigatória no Brasil passassem só por Buenos Aires e nos deixassem de fora. A visita de artistas como Oasis, Madonna, Simply Red, Alanis Morissette e Coldplay e suas turnês já é tão comum por aqui que nem pensamos como seria a vida sem elas e que consequências tais ausências provocariam no (não) surgimentos de centenas de grupos e movimentos musicais. No vizinho Peru, sequer essas eventuais aparições aconteciam. Mas a seca acabou. Por conta do baixo poder aquisitivo da maioria da população, os altos preços que seriam cobrados pelos ingressos amedrontavam as produções. Os aficionados por música de lá só agora quebraram o jejum, depois que o Congresso do Peru aprovou uma lei que praticamente extinguiu os impostos para espetáculos culturais no país. Isso, aliado à diminuição gradativa do desemprego e aumento do poder aquisitivo da população, tem como resultado as primeiras e históricas passagens pelo país andino de atrações como R.E.M., Duran Duran, Iron Maiden e Kiss. Tão longa foi a espera que as lotações no estádio Jorge Chávez (com capacidade para 50 mil pessoas), em Lima, diversas vezes superaram as de países com tradição de receber tais turnês, como Chile e México.

A redução dos impostos contribuiu muito para que o país entre definitivamente no circuito de shows internacionais diz Christian Fernández, da Fénix Entertainment Group, da Argentina, responsável pela ida de artistas como Kylie Minogue e Duran Duran ao Peru. Lima cresceu muito nos últimos três anos, e o público ávido por atrações internacionais também aumentou na mesma proporção.

O próximo da lista é o Depeche Mode, em outubro, que vai ganhar abertura da banda local Dolores Delirio, que guarda similaridades musicais com o próprio grupo inglês de synth pop e também com o U2.

Essa enxurrada de shows está dando um gás imenso na formação de uma cena local, além da oportunidade de mostrarmos nosso trabalho para plateias que nunca antes conseguiríamos reunir celebra Josue Vásques, baterista do grupo, que existe há 15 anos e cujo auge havia sido participar do CD Porque no puedo ser tu, um tributo latino ao The Cure, com elenco escolhido pelo próprio Robert Smith.

A recente, porém já ativa, procura pelos shows de rock internacionais e ainda não despertou a sensibilidade das rádios. Em Lima, não há uma emissora inteiramente dedicada ao gênero. Algumas poucas flertam com o pop, mas garantem espaço somente para sucessos consagrados mundialmente. Artistas peruanos não figuram em suas programações. O gênero da moda, quase que omnipresente no dial local, é a cumbia, um ritmo dançante típico da Colômbia e que se disseminou pelos países que falam castelhano na América Latina.

Única banda de Lima de pop rock que conseguiu furar o bloqueio das rádios, o Bareto, uma big band de 10 integrantes, lançou mão de um CD (o terceiro da carreira) oportunamente batizado de Cumbia, onde mesclam o gênero com suas guitarras roqueiras.

A cumbia que toca nas rádios peruanas é uma versão popularesca desse gênero tradicional, que originalmente é sensacional classifica o guitarrista Joaquín Mariátegui, que nasceu em Brasília, mas mudou-se ainda bem jovem para o Peru. Nesse álbum, que está entre os mais vendidos e executados no país atualmente, fizemos um resgate do repertório do mais tradicional grupo de cumbia do Peru, o Juaneco y Su Combo, dos anos 60. Chamamos inclusive o cantor original para participar do álbum. Foi um sério trabalho de pesquisa musical. Acredito que a música peruana, assim como a culinária cada vez mais popular e o turismo já consagrado, tem potencial para influenciar o mundo, como aconteceu com a bossa nova brasileira.

O grupo credita o atual sucesso à abertura para o cenário internacional e à ideia do projeto focando no popular ritmo.

Graças a este momento, fizemos nosso primeiro show internacional, justamente no Brasil vibra Mariátegui. Foi num festival de rock em Rio Branco, no Acre, em janeiro. O público brasileiro foi muito receptivo. No final todos gritavam: Peru, Peru, Peru!

Estampado na capa do caderno de cultura do principal jornal do país, o El Comercio, o grupo indie Mi Jardín Secreto é a nova aposta roqueira do país.

Nossas influências passam por The Smiths e Television, mas misturamos isso com referências atuais, como Walkmen e ArtBrut define o baixista Christian Manzanares.

Outros nomes vêm se destacando nessa cena musical pop peruana recente, como La Sarita, El Resplandor e Catervas. Mas a grande sensação do momento é a atriz Magaly Solier, protagonista do filme La teta asustada, vencedor do Urso de Ouro em Berlim este ano, e que acaba de se lançar como cantora. Seu primeiro CD, Warmi, cantado em quechua (o idioma dos incas) já é um dos mais vendidos no Peru.