Nova York é coisa de cinema

Franz Valla, JB Online

NOVA YORK - Cidade tenta baixar custos para que diretores voltem a usar suas ruas como cenário

A estreia de O sequestro do metrô nos cinemas americanos há duas semanas tinha tudo para ser o blockbuster que abriria o verão. A obra, uma refilmagem de um thriller de ação dos anos 70 sobre o sequestro de um carro do metrô nova-iorquino, traz John Travolta e Denzel Washington nos papéis principais e vinha sendo antecipado há pelos menos três meses pela mídia. A publicidade que poderia servir para garantir o sucesso do longa acabou se voltando contra, expondo seus pontos fracos. Dentre estes, o mais importante e que não encontra perdão na crítica e no público é o fato de ter sido todo rodado no Canadá apesar se ambientar em Manhattan. O resultado nas bilheterias ficou longe do esperado.

Já faz tempo que as companhias de produção começaram a fugir de Nova York devido aos custos altos. Mas o problema ganhou destaque maior recentemente, depois que Woody Allen justificou publicamente sua dificuldade em filmar em casa. O preço para rodar na Grande Maçã não é barato. Apesar de a cidade oferecer incentivos fiscais, a conta continua proibitiva. Reconhecendo o problema, a administração do prefeito Michael Bloomberg criou diversos programas para atrair mais produções.

A Secretaria Oficial para Cinema, Teatro, TV e Rádio, que emite permissões para filmar na cidade, diz que a ideia é ampliar ainda mais os incentivos. Responsável pelas autorizações, Phillip Brown adianta a principal razão para se filmar em Nova York.

A cidade é um personagem à parte e que todo mundo conhece diz, referindo-se ao polêmico O sequestro do metrô. As pessoas querem ir ao cinema e reconhecer as ruas e referências familiares. Mais do que um cenário, Nova York se tornou parte da narrativa.

Para Brown, a reclamação dos produtores quanto aos altos custos da cidade não servem como argumento:

O custo de filmar na cidade não é maior do que o salário pago aos artistas pondera. As produções que estão em andamento agora levam este fato em consideração e sabem que filmar aqui pode fazer toda a diferença.

Agora filmar em propriedades da cidade tornou-se gratuito e a permissão é obtida em apenas sete dias. Os descontos oferecidos por mais de 800 provedores de serviços, companhias de produção, hotéis e linhas aéreas também são bem-vindos, mas o reembolso, que pode chegar ate 35% no imposto de renda, já faz a diferença.

O reembolso pode não representar muito, mas abate parte dos custos, na medida que qualquer produto comprado ou utilizado na cidade sofre um impostos de 8.25% um dos mais altos do pais.

Para se ter uma ideia, basta cruzar o rio Hudson e os impostos em Nova Jérsei caem para 3%. O incentivo fiscal oferecido dura somente até 2013 e prevê um teto, ou cota, para cada companhia de produção. Os críticos dessa medida limitativa apontam para o fato de que as produtoras preferem utilizar suas cotas para os seriados que já são ambientando em Nova York (como o CSI, por exemplo) deixando pouco para as produções cinematográficas que custam mais caro.

Este buraco na legislação não passou despercebido e já está em estudo um sistema para eliminar as limitações. A cidade entende que seu maior patrimônio são seus cartões postais e briga para imortalizá-los no cinema. Através de seu website, a prefeitura já tornou disponível para download vários podcasts com informações sobre os lugares que serviram de cenários para os filmes, permitindo aos turistas que percorram estas rotas a pé. Os podcasts são narrados por Julianna Margulies e Matthew Modine e trazem curiosidades sobre estas filmagens.

Toda a dificuldade e impedimentos financeiros, contudo, a cidade continua sendo pano de fundo ideal para produções em andamento. Durante o verão, serve de cenário para pelo menos 22 projetos ambientados em Nova York, como Arrested development, baseado no seriado do mesmo nome, e Couple of cops, de Kevin Smith, com Bruce Willis. Já o aguardado Sorcere's aprentice, com Nicholas Cage, explorará cada canto da ilha. Durante as filmagens, chamou a atenção depois de causar um acidente na Times Square. Um carro dirigido por um dublê perdeu o controle e bateu contra a vidraça de uma pizzaria, ferindo uma pessoa. Apesar do incidente, as filmagens continuam e devem durar até o fim de Julho pelas ruas da cidade.

No momento, o número de produções ainda é menor que nos anos anteriores. Há dois anos, no mesmo mês de julho, havia pelos menos o dobro. Em relação à queda, Phillip Brown é categórico:

É preciso levar em consideração que o país está atravessando uma crise. Nossa estimativa é que no verão do ano que vem voltaremos ao mesmo patamar e, graças aos incentivos oferecidos, talvez ultrapassá-lo.