Musical, agora mais versátil e refinado

Macksen Luiz, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Com uso elaborado da trilha sonora, teatralidade se sustenta bem mesmo sem texto

Cada vez mais presente nas temporadas cariocas, o musical adquire diversidade e refinamento que não se imaginava comercialmente possível há poucos anos. O gênero se multiplicou em formatos que variam dos clássicos da Broadway a biografias cantadas, de adaptações nacionais a shows teatrais. E é deste gênero O som da Motown, que ocupa o Teatro Leblon com sucessão de exemplares da black music nascida e divulgada pela gravadora de Detroit no início dos anos 60.

Não há texto, muito menos informações sobre essa máquina de lançar cantores negros em escala mundial, apenas sequência de hits que marcaram por décadas a cultura pop, mas nem por isso menor teatralidade. Com a lembrança recente e bem-sucedida de Beatles num céu de diamantes, com que a operante dupla Charles Möeller e Cláudio Botelho inaugurou o estilo, O som da Motown segue a mesma trilha de aproveitar cenicamente o material musical como representação de compositores ou de um movimento.

Pelas entrelinhas do repertório se desenham o caráter das composições e o espírito do tempo. O elenco atua , cantando, e por sua voz se estabelece o cenário de onde as canções surgiram e se percebe o mundo que seu som ecoa. Os diretores Renato Vieira e Cláudio Figueira selecionaram 50 músicas que desfilam sem preocupação didática ou cronológica, procurando reproduzir a força expressiva das canções e mimetizar timbres e visuais. Desta forma, a dupla de diretores constrói musicalidade teatral, na qual apenas as projeções informam sobre o período, flagrando os cantores da Motown que, ilusoriamente, tão bem se corporificam diante de nossos olhos.

Para além das projeções a melhor delas, quando a cantora-atriz faz dupla com Michael Jackson num dueto vibrante -, os excelentes figurinos de Marcos Oliveira são decisivos na caracterização das cantoras e do universo da gravadora. O cenário assinado pelos diretores, ambienta, com luz de Eduardo Salino, o aspecto de show musical, reproduzindo a estética colorida e os brilhos que enquadravam as vozes do soul e de outras reverberações sonoras negras.

O arranjo e a direção musical de Fernando Lopez, a direção vocal de Everton Louvize e os músicos Robson Rodrigues, Márcio Amaro, Moisés Camilo e George Oliveira, demonstram a qualidade profissional que o gênero atingiu nas produções nacionais.

Mas todo esse cuidado na embalagem estaria perdido se o elenco não correspondesse ao desafio de interpretar, musical e corporalmente, a sonoridade da Motown. As cinco cantoras Simone Centurione, Thalita Pertuzatti, Ellen Wilson, Alcione Marques e Débora Pinheiro - se impõem, não só pelas vozes, como pela interpretação gestual e coreográfica dos cantores que encarnam.

A multiplicidade de participações, numa gama de nomes, das Supremes a Lionel Ritchie, de Jackson Five a The Temptations, revelam ótimas cantoras e, suspeita-se, algumas atrizes com temperamento para outras modalidades de musical.