Com Caetano, ao redor do mundo

Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O diretor Fernando Grostein registra performances e a intimidade do compositor em turnês nos

EUA e no Japão. É o seu

primeiro longa

Aos 28 anos, o cineasta Fernando Grostein Andrade acelera firme numa rotina frenética a bordo de sua recém-inaugurada Spray Filmes. Trancado por horas a fio em ilhas de edição, reunindo-se com clientes entre Rio, São Paulo e Curitiba, ou apresentando filmes para patrocinadores, ainda arruma tempo para rascunhar duas ficções inéditas e esquadrinhar, milimetricamente, cada passo para o lançamento do seu primeiro longa-metragem, o documentário Coração vagabundo. Rodado entre 2003 e 2005, o filme registra a intimidade de Caetano Veloso numa turnê que atravessa o Japão e os EUA com estreia prevista para o dia 24 de julho.

Está tudo rápido demais. Já estamos com quatro meses de produtora. Algo que resolvi apostar num momento em que todo mundo estava se dando bem, a economia mundial favorável... E aí arrisquei uma puta ideia brinca o cineasta, em entrevista ao Jornal do Brasil.

Não é de hoje, porém, que o ritmo das batidas em seu peito pulsa em compassos nada vagabundos. Em 1996, o então estudante, de apenas 15 anos, aguardava ansioso o término das aulas para zarpar em disparada rumo ao escritório da agência de publicidade DM9, sediada na capital de São Paulo. Lá, desvencilhava-se do peso da mochila nas costas e sugava conhecimento cercando-se de veteranos como Nizan Guanaes e Márcio Ribas, entre outros.

De lá para cá se passaram 13 anos. Tempo o bastante para que Grostein acumulasse passagens pela produção artística da rádio Jovem Pan, imersões noturnas como DJ, participação na campanha presidencial de Fernando Henrique Cardoso, crônicas assinadas para publicações como Trip e Playboy, além de cursos de direção e roteiro em universidades americanas (UCLA e UFC).

Soma-se a todas as essas atividades o lançamento do premiado curta-metragem De morango (2002) primeira produção brasileira do tipo a ser rodada em HDTV que lhe serviu de credencial para ingressar no concorrido mercado cinematográfico. Mais do que isso, era o passaporte que o transportaria para uma viagem de escalas sem precedentes ao redor do globo.

Mandei o curta para a Paula Lavigne (ex-mulher e produtora de Caetano Veloso). E aí ela me convidou para dirigir o clipe para Você não me ensinou a te esquecer, do filme Lisbela e o prisioneiro. Ali, aprendi muito com o Guel Arraes e pude conhecer o Caetano. Logo depois topei um convite para acompanhar uma turnê que ele faria para promover o A foreign sound conta Grostein.

Na boleia da produção do ícone tropicalista, o diretor armou seu circo e passou a registrar de perto cada passo que o baiano de Santo Amaro investia. E, como quem pega uma carona à beira da estrada, o diretor decidiu que sua aventura deveria obedecer à seta do destino, tomando proporções ambiciosas.

O documentário não foi planejado, aconteceu como um imprevisto, quando, depois de uma brincadeira da Paula (Lavigne), flagramos Caetano nu no banheiro do hotel lembra o diretor. Depois começamos a conversar sobre a possibilidade, apresentei o resultado e chegamos a um acordo. Sempre gostei muito do trabalho do Caetano, mas uma das primeiras coisas que confessei é que não conhecia profundamente seus álbuns ou seu histórico no tropicalismo.

A sinceridade do diretor, que àquela altura ostentava 23 anos, faz transparecer na tela um artista desarmado e empenhado em contar detalhes, histórias divertidas, além de boas piadas.

Acho que isso gerou uma autenticidade na forma como Caetano se revela.

Byrne, Antonioni e Almodóvar

Ao retratar suas alegrias, angústias e tristezas, Coração vagabundo traz, além de boa música, momentos marcantes, como o carinho dos fãs japoneses e americanos. Em Nova York, antes e depois da série de 10 shows realizada no Carnegie Hall um deles com a participação de David Byrne, ex-líder dos Talking Heads Grostein surpreendeu-se com o estado aflito e instrospectivo do ídolo.

Ele não estava à vontade com aquele reconhecimento todo... Página inteira no The New York Times, shows lotados no Carnegie Hall... E aí eu perguntei: Por que você tá assim? . E ele: Rapaz, eu cresci em Santo Amaro até os 18 anos. Não nasci em São Paulo, não, onde você sai do berço e já cai dentro do mundo .

Interpretada como uma leve indireta, a frase de Caê repousou certeira nas ideias do diretor e lhe serviu como escopo para o filme:

Não tinha a mínima pretensão de tentar explicar ou definir o que é Caetano Veloso. O que seria uma tarefa impossível acredita. Não tenho estofo acadêmico ou intelectual para isso. Quis mostrar uma viagem bem-humorada, mas que discutisse questões culturais importantes, como essa dinâmica de oposições muito característica, no caso dele, entre o cosmopolitismo e o provincianismo.

De papo fácil e interesses comuns, Caetano saciou durante as viagens a curiosidade do diretor com teses sobre diretores como Frederico Fellini e Michelangelo Antonioni. Este último foi registrado pelas lentes de Gronstein num encontro emocionante.

Caetano é de uma inteligência sobrenatural, mas sem qualquer pedantismo. Busquei contrapor essas qualidades com a simplicidade. Quando chegamo ao Japão, fomos abordados por um monge, fã de Coração vagabundo, uma canção feita quando ele ainda morava na Bahia. Percebi que quanto mais longe íamos, mais Caetano se aproximava de Santo Amaro. Coração... é símbolo do filme e dessa poesia profunda que atravessou o mundo.

Caetano confessa que não gosta de ser filmado e, depois que atingiu os 60, nem mesmo de ser fotografado. Mas, no fim, gostou do que viu:

O filme é especialmente afetivo e termina por tocar fundo em pontos relevantes diz o cantor. Eu me achei até engraçado, quase amargo, um humor de quem não espera mais nada da vida. Lembra uns homens maduros de Santo Amaro.