A reestreia de uma artista e a repatriação de uma obra

Monique Cardoso, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Quem foi Noêmia Guerra, pintora carioca radicada em Paris

São décadas de produção. Poderia ser uma retrospectiva. Mas também são décadas de afastamento de sua terra natal. Por isso, a exposição Cor e movimento, que o Museu de Arte Moderna inaugura na próxima sexta-feira, é quase uma reestreia póstuma da artista carioca Noêmia Guerra, que viveu em Paris por mais de quatro décadas e que completaria 90 anos este ano. A pintora deixou o Brasil em 1958, ainda expôs em salões e bienais nos anos seguintes, mas em meados dos anos 60 perdeu completamente o vínculo com o circuito artístico nacional. O período coincidiu com sua descoberta em Montmarte, onde mantinha ateliê. Enquanto seu nome era grafado nas páginas da história da arte moderna na europa, ia sumindo por aqui. A mostra, que recupera os laços da artista com os brasileiros, reúne 150 óleos, mais aquarelas, desenhos, registros de sua carreira, cadernos de viagens, entre outros objetos pessoais.

Vão ser três tipos de contato do público com a obra. O reencontro, de quem viveu ou conhece bem a geração dela. A redescoberta, de um público que conheça alguma coisa sobre ela, e uma descoberta autêntica para as gerações mais recentes acredita Pedro Vasques, curador da exposição.

Ele mesmo passou o último ano investigando a vida e a produção de Noêmia. Pouco sabia da trajetória a partir de sua saída do Rio. A pintora, nascida em 1919, vinha ao Brasil apenas visitar os filhos e a família e só voltou a morar no país em 2004. Morreu dois anos atrás. Nascida em família tradicional, os Cordeiro Guerra, Noêmia sempre flertou com as artes. Tinha aptidões, mas só decidiu ser pintora depois de participar, em 1952, de um curso com André Lhote, que fora professor de Tarsila do Amaral em Paris.

Noêmia pertence à geração de Manabu Mabe, Iberê Camargo, Carlos Scliar, com os quais ela conviveu. Ela era amiga de Portinari, estava fazendo parte desse movimento, experimentando. Partia da figuração e seguia para a abstração explica o curador.

Participou do emblemático Salão Preto e Branco o Salão Nacional de Arte Moderna de 1954 organizado por Iberê Camargo, em que foi decretada a greve das cores e que reuniu obras de renomados artistas da época, Sergio Camargo, Djanira, Antonio Bandeira, Décio Vieira, Renina Katz e outros. Teve obras incluídas no salão de 1958 e no de 1960. Três anos depois, seu trabalhou figurou na Bienal Internacional de São Paulo. Fez sua primeira individual na França depois de sete anos em Paris. Então, passou a ter seu trabalho visto com frequência lá e na Inglaterra.

As obras da mostra vieram, a maior parte, de seu acervo pessoal, guardado em suas casas de Paris e do Algarve, em Portugal. Ela mesma repatriou tudo, no fim da vida informa Vazquez.

A cor é a marca de sua obra. Apesar de ter se afastado da vida brasileira, o país sempre foi fonte de inspiração. Entre os temas presentes na exposição estão as danças (do balé clássico ao samba de roda da bahia, passando pelo folclore popular), as florestas (a da Tijuca, no Rio, e a de Compiègne, no interior da França, ganharam sua interpretação em diversas telas), as flores (a artista era uma entusiasta da orquidofilia) e as marinhas (a costa de Algarves aparece em diversos quadros).

Era amante da natureza e para pintar não usava fotografia de base conta o químico espanhol Julian de Prada, companheiro da artista por quase 50 anos e um dos organizadores da exposição Tínhamos o hábito de fazer cadernos de viagens. Nós dois escrevíamos e ela ilustrava com belas aquarelas. Reproduzia flores com perfeição. Nas danças, criou uma série inteira inspirada na Sagração da primavera, de Stravisky, a coreografia de Maurice Béjart a marcou muito. Também retratou o samba com a mesma paixão.

A pintora não tinha o perfil de circular em rodinhas de artistas e intelectuais, muito embora pudesse ter acesso a várias delas. Foi uma profunda estudiosa de filosofia e estética. Frequentou o Collège de France, a Société Française d'Esthétique (da qual chegou a ser membro do Comitê de Honra) e, em Londres, onde fez muitas exposições, a International Socitey of Aesthetics. No Collège International de Philosophie era assídua em seminários de Alain Badiou, Pierre Bourdieu e Régis Debray.

Ao lado do curador e dos dois filhos de Noêmia, adolescentes quando a mãe deixou o país, Julian cuidou não só a mostra, mas da elaboração de um livro, que será lançado no dia da abertura. O nonagenário espanhol, dono de um excelente português, devolve assim a artista a seu povo.

Ela morava fora, mas tinha um vínculo permanente com a terra dela. Tanto que preferiu que o acervo pessoal ficasse conservado no Brasil.