A minuciosa investigadora dos textos

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - A atriz Karen Coelho ultrapassa o limite da promessa no espetáculo 'O zoológico de vidro'

Desde muito cedo, Karen Coelho decidiu ser atriz. Caso único numa família repleta de médicos o que não significa que faltaram estímulos. Seu primeiro contato com o teatro se deu através da avó, que a levava para assistir a diversos espetáculos, sem preocupações com a pouca idade da neta.

Nós íamos de van ver todo tipo de peça, várias voltadas para o público adulto. Eu não entendia nada, mas gostava relembra Karen.

O passo seguinte foi se inscrever em cursos em Campo Grande, bairro onde morava. Não demorou a ingressar na Casa das Artes de Laranjeiras (CAL), aos 16 anos. Hoje, aos 24, contracena com Cassia Kiss, Kiko Mascarenhas e Erom Cordeiro na montagem de O zoológico de vidro, sob a direção do conceituado Ulysses Cruz, no Teatro Maison de France, no Centro.

A excelente peça de Tennessee Williams, mais lembrada pelo título À margem da vida, parece atravessar a promissora carreira de Karen, já que foi estudada pela atriz na escola de teatro e também fez parte de uma leitura dentro do evento Grande Teatro Tupi, ciclo organizado pelo produtor e coordenador da CAL Hermes Frederico. Em O zoológico de vidro, que chega ao Rio depois de passagem bem-sucedida por São Paulo, a atriz retomou a frágil Laura, que se refugia numa espécie de mundo paralelo, habitado por delicados bichinhos de vidro.

Ulysses pediu para que eu investigasse o autismo de Laura. Construí um modo particular de manusear os bichinhos, busquei um tempo de resposta mais lento. Investi numa composição corporal menos presa ao naturalismo explica Karen, a respeito de uma personagem inspirada em Rose, irmã de Tennessee Williams, portadora de sintomas de esquizofrenia.

Ainda que conheça bastante o texto, participar de O zoológico de vidro é definitivamente uma experiência nova. Até então, tinha praticamente trabalhado apenas com dois diretores: João Fonseca e Nara Keiserman, ambos seus professores. Com João, marcou presença nas montagens de As bruxas de Salém, de Arthur Miller (assinada em parceria com Antonio Abujamra), substituiu Juliana Barone em Escravas do amor, a partir de folhetim de Nelson Rodrigues, e interpretou Alma, na versão de Gota d'água, de Chico Buarque e Paulo Pontes.

Conheci Karen na CAL, quando ela tinha 17 anos. Pensei: ainda tem criança na sala de aula lembra Fonseca. Mas logo ela apresentou uma cena de Romeu e Julieta que me deixou de queixo caído. É um talento precoce. Concentrada, dedicada, disciplinada, dona de uma inteligência cênica, propõe sempre um ponto de vista sobre a personagem que foge do óbvio.

Cumpllcidade poderosa

Com Nara, Karen fez História de amor, de Heiner Müller, e enveredou pelo estudo de escritores contemporâneos até se deter em Marcelo Mirisola, realizando uma experiência cênica através do conto Basta um verniz para ser feliz. Nesse momento, retorna ao autor em Joana a contragosto, solo que estreia no início do ano que vem.

Karen só poderia ser atriz na vida. Há um entendimento artístico entre nós poderoso garante Nara, que também deu aula para ela na UniRio, onde a atriz ingressou depois de concluir o curso na CAL.

Com a discrição habitual, Karen Coelho justifica o fato de ter decidido fazer outro curso de interpretação.

Sou uma curiosa. Gosto de estudar, apesar de ainda não ter pretensões acadêmicas diz Karen, que foi bolsista de iniciação científica na pesquisa sobre o ator-narrador, vertente que Nara começou a investigar em 1975, quando morava em Porto Alegre, e desenvolveu sob a orientação de Luiz Arthur Nunes.

Para completar, Karen se viu diante de um desafio. Durante a temporada de Gota d'água, recebeu convite do produtor de elenco André Reis para participar da segunda versão da novela Ciranda de pedra, de Alcides Nogueira, na TV Globo.

No começo, fiquei um tanto perdida no meio daquela maquinaria. Aos poucos, fui entendendo e me divertindo. A TV trouxe autonomia para o meu trabalho. Afinal, tudo tinha que ser rápido. E recebi ajuda de bons parceiros de cena, como Caio Blat observa Karen, escalada para fazer a iludida secretária Idalina, que depois voltou rapidamente à televisão no programa A grande família.