Grégoire Bouillier protagoniza a mesa mais quente da Flip

Bolívar Torres, JB Online

RIO - Fazer da vida íntima a principal matéria-prima para a arte pode ter consequências surpreendentes. Que o digam o escritor Grégoire Bouillier e artista plástica Sophie Calle, que puseram a nu seu relacionamento em duas obras. Na exposição Prenez soin de vous (Cuide de você), Sophie transformou o e-mail de rompimento escrito pelo ex numa instalação. No romance O convidado surpresa, editado pela CosacNaify e que será lançado na Flip-2009, Bouillier conta a origem do relacionamento entre os dois.

Será em Paraty, por sinal, que a dupla, pela primeira vez, discutirá em público o já famoso episódio do pé-na-bunda, durante a mesa apropriadamente chamada Entre quatro paredes , sábado, às 11h45. Em nome da emoção, há quem torça por um barraco. Mas, em entrevista ao Ideias, Bouillier fez questão de logo esclarecer: Sophie e ele se dão muito bem. Foi da artista plástica, inclusive, que partiu o convite para o debate.

Achei que não havia nenhuma razão para não aceitar diz o romancista. Com certeza, será uma experiência divertida. E também arriscada, o que sempre me agrada muito. Não preparamos nada, vamos ver o que vai acontecer. Mas temos ótimas relações. Já conversamos antes sobre nosso trabalho, mas nunca publicamente. E é claro que, com plateia, muda tudo.

O mais complicado em entrevistar o escritor francês Grégoire Bouillier é a suspeita de que qualquer parte da conversa acabe entrando em um de seus livros. Na onda da chamada autoficção gênero que rechaça o autor faz da própria vida a única fonte de material literário. Seu segundo romance, O convidado surpresa, narra o encontro e relacionamento com a artista plástica Sophie Calle. Começa no início dos anos 90, quando o autor é o convidado surpresa de uma festa promovida por Sophie como um ritual de aniversário . Continua com o reencontro dos dois, em 2002, ano do lançamento de seu primeiro livro (o também autobiográfico Rapport sur moi). Toda a história se passa entre as duas épocas, duas fases da vida de uma mesma mulher e de um narrador. Para Bouillier, porém, a exposição pública das vivências íntimas é mais do que uma espetacularização de si mesmo. Trata-se de uma reflexão sobre os próprios mistérios e acasos da realidade.

Não fabrico a realidade. Meu trabalho é achar a ficção no coração da realidade esclarece. A autoficção não se aplica aos meus livros. Ela surgiu ao mesmo tempo que os reality-shows, e para mim é um pouco a mesma coisa: a fabricação de uma realidade que na verdade não é real, mas fruto de uma produção. Eu apenas olho a realidade tentando elucidá-la, tentando encontrar as leis que a sustentam. Por que algumas coisas acontecem e não outras?

Na direção contrária

Em seus três romances, Bouillier trabalha o real como algo que está sempre superando a ficção. Neste sentido, sua obra vai na direção contrária aos métodos dos autores de autoficção e da própria Sophie Calle, cuja estratégia é criar situações na vida para depois explorá-las com fins artísticos. Enquanto a artista plástica e escritora coloca em cena dispositivos dentro da realidade, ele apenas espera pelos acontecimentos.

Ao contrário de Sophie, não provoco dispositivos, não coloco nada em cena compara. Como todo mundo, tento viver as coisas. Em seguida, me sinto suficientemente surpreso com o que se passa na realidade para restituí-la por escrito, tentando estar o mais perto da amplitude dos acontecimentos.

Ironicamente, as duas estratégias se cruzam em O convidado surpresa, na medida em que a situação que detona a história de Bouillier é uma fabricação de Calle. A tal festa em que os dois personagens/autores se encontram era um antigo ritual da artista. Em 1980, por medo de ser esquecida no dia do seu aniversário, tomou a decisão de convidar um número de convidados equivalentes a sua idade. Entre eles, um desconhecido que um dos convivas se encarregaria de trazer. Em 1992, a ex-namorada de Bouillier o chamou para ser um desses convidados misteriosos . Ele aceitou, com a certeza de que uma outra verdade se escondia atrás do propósito.

No livro, o escritor relata como fica surpreso, admitindo todo seu ressentimento em relação ao antigo amor, com generosas doses de auto-sarcasmo. Mas quando chega à festa trazendo um presente muito acima de suas posses o que começa como o retrato de uma dor-de-cotovelo logo vira a história de um novo encontro.

Isso é o mais engraçado. Temos o hábito de opor a ficção à realidade diz. Mas no meu livro há essa ideia de que a realidade é feita de ficção, que alimenta ela mesmo uma ficção que depois vira realidade. É uma espécie de circuito: uma situação real, que é o rompimento amoroso, que depois vai se desenvolver graças à artificialidade artística que Sophie coloca em cena, da mesma forma que o personagem feminino da história mudou sua vida em função de um livro. E tudo isso me faz produzir um outro livro, que talvez um dia irá cair nas mãos de alguém.

Apesar de tentar se aproximar o máximo possível da veracidade dos fatos, o autor admite que a fidelidade absoluta é impossível:

Nunca disse que o que escrevo é a verdade. O conceito de verdade é outra coisa. Quando conto um acontecimento, faço da maneira como sei que aconteceu. É a partir dessa ideia que tento avançar na literatura. Em Rapport sur moi, escrevo um capítulo em que mostro como minha memória pode me trair.

A relação com Sophie Calle acabou com um e-mail de rompimento, escrito por Bouillier, o qual terminava com a frase: Prenez soin de de vous (Tome conta de você). Sem saber como responder, a artista transformou a mensagem numa instalação. Gravou em vídeo o depoimento de mais de 100 mulheres comentando o email. O escritor admite que, para ele, é difícil julgar a exposição.

O leque de sensações que tenho em relação ao trabalho de Sophie é muito vasto. Do ponto de vista pessoal, não me agradou. No artístico, não tenho competência para julgar sua qualidade. Já como escritor, acho que nunca pediria para ninguém escrever no meu lugar o que sinto.

Apesar de estar ansioso pelo encontro dos dois na Flip o primeiro desde o rompimento Bouillier não acredita que ele poderá servir como eventual material literário.

Acho que não terá a espessura necessária diz.