Escola de luthier em Rio das Ostras ensina o ofício para adolescentes

Leandro Souto Maior, Jornal do Brasil

RIO DAS OSTRAS - Luthier é o médico dos instrumentos musicais. É o profissional especializado em sua fabricação e manutenção. Quase como o caos que testemunhamos no nosso caótico sistema de saúde, encontrar disponível um bom luthier no Rio muitas vezes pode se tornar uma verdadeira Via Crucis. São poucos, em comparação com a grande demanda de músicos profissionais e amadores que frequentemente necessitam requisitar seus serviços. Um atenuante para essa defasagem de mestres dos instrumentos disponíveis no mercado é o trabalho realizado pela Oficina Escola de Luteria de Rio das Ostras, projeto social que ganhou chancela da Unesco (a Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura) e desde 2002 ensina gratuitamente a arte da fabricação dos instrumentos musicais para jovens de baixa renda na cidade da Região dos Lagos.

É importante a formação de cada vez mais profissionais nessa área ressalta Alexandre Marinho, coordenador da luteria. Além das aulas na escola, trabalho como luthier em minha própria oficina. Todo dia acordo às sete da manhã e vou até as oito da noite confeccionando e consertando instrumentos. Não coloco anúncio no jornal e na minha casa não tem nem placa na frente. Mesmo assim, tenho procura o dia inteiro. É uma atividade bastante promissora.

Um ano de dedicação

No início, eram três turmas de seis alunos. Hoje, a escola tem 90 futuros artesãos da música, com idades variando entre 14 e 19 anos, que se dividem em quatro turmas, duas de 20 e outras duas com 25 alunos. Para ingressar no curso, além de a família ter que provar que não tem condições de pagar um professor particular, eles prestam exame de matemática, geometria e conhecimentos gerais.

É preciso dedicação e acompanhamento para se chegar a manejar com precisão ferramentas manuais que muitas vezes são perigosas, como serras, lixadeiras, plainas, formões, serrotes e furadeiras detalha 'Frizi', como Marinho é conhecido na cidade. Depois de cerca de um ano de dedicação, o aluno já acumula conhecimento para construir seus primeiros instrumentos.

Neste estágio inicial, porém, nada que se compare com as invenções mais avançadas produzidas pela oficina, como um cavaquinho-bandolim no mesmo instrumento, um violão todo feito em aço inox ou ainda um com cordas dos dois lados de um único braço, sendo de um lado cordas de nylon e do outro de aço.

Instrumentos personalizados podem alcançar cifras altas, às vezes nem tem preço. Na manutenção, é possível um luthier ganhar até mais de R$ 500 por instrumento consertado calcula Marinho. Na Europa, o curso de luthier tem nível superior. Aqui no Brasil, infelizmente, esta profissão não é sequer reconhecida. Na minha carteira de trabalho consta que sou instrutor, mas não especifica de quê.

Instrumento único

Está programado para novembro, na mesma Rio das Ostras que também recebe anualmente estrelas do jazz e do blues em seu badalado festival, a primeira edição de uma grande exposição de arte batizada Ecos, voltada ao meio ambiente e ecologia, onde irá desfilar a produção dos alunos da Oficina Escola de Luteria.

Será a fusão da arte do luthier com a arte contemporânea. Tanto para criar quanto para consertar, o luthier tem que ser um artista atesta. Assim como cada instrumento criado é único, o profissional tem que ser criativo para calcular cada reparo, já que nenhum violão quebra de forma igual.