Grupo loscorderos.sc traz ao Rio sua vigorosa montagem de estreia

Daniel Schenker, Jornal do Brasil

LONDRINA/PR - Crônica de José Agarrotado, espetáculo da companhia loscorderos.sc, da Espanha, é considerado como legítimo representante de uma categoria um tanto genérica a de teatro físico. De fato, o vigor corporal de David Climent e Pablo Molinero, atores responsáveis pela concepção de todo trabalho, impressiona. Mas a expressão não é suficiente para definir a montagem, que ficará em cartaz de hoje até domingo no Teatro 1 do Centro Cultural Banco do Brasil, dentro da programação da Mostra Internacional de Teatro.

Nós assumimos a etiqueta de teatro físico porque nos cobram uma definição diz Climent.

Primeira encenação do grupo, que começou a ser apresentada há mais de seis anos, Crônica... vem transitando por diversos festivais, como Porto Alegre em Cena, Cena Contemporânea, de Brasília, e a atual edição do Festival Internacional de Londrina (Filo).

Nesse meio-tempo, Climent e Pablo deram continuidade à trajetória da companhia através da criação de outros trabalhos, como Tocamos a dos balas por cabeza e El hombre visible, única empreitada em que não partiram de um texto gerado a partir de criação conjunta (os autores escolhidos foram Fernando Pessoa e Oliveiro Girondo), além do curta-metragem Te han preguntado por mi?, dirigido por Guillermo Asensio, e a vídeoinstalação Shakespeare meeting-point.

No caso de Crônica..., não está em questão um mero encadeamento de movimentos ou a exibição de uma coreografia precisa. Os atores executam, isto sim, uma partitura, norteados por um universo temático: a agonia diante da passagem do tempo, impossível de ser evitada, da sensação de não se ter chegado ao ponto em que se gostaria. A palavra não parece surgir como instrumento suficiente para externar esta angústia.

Com a palavra, nasce a mentira. Ela é menos tangível. Você pode dizer algo e ser verdade ou não. A fala também gera mal entendidos observa Climent, aproveitando para lembrar que através do treinamento físico extremado o ator tende a abrir mão da busca pelo controle sobre sua própria presença. O trabalho corporal nos ajuda a acessar emoções. Acredito que se consiga atingir um transe real por meio dele.

No teatro realizado pelo loscorderos, o texto é destituído de um lugar de protagonista, tornando-se mais um entre os vários elementos que compõem a cena. Uma característica que pode ser estendida às obras de outros encenadores, como Gerald Thomas, que redimensiona o lugar do texto para além do plano meramente verbal.

Defendemos a ruptura da hierarquia em relação ao texto resume Climent.

O público é confrontado com um espetáculo que oferece códigos de acesso diversos ou, pelo menos, não limitados à apreciação racional.

Queremos nos comunicar com a plateia em diferentes níveis. O trabalho físico nos abre uma possibilidade de contato pelas vias do instintivo e do poético afirma Molinero.

O objetivo está em levar cada espectador a produzir associações a partir do que vê, em vez de fornecer pistas indicativas de uma interpretação fechada. Talvez por isto os atores, que já integraram o grupo La Fura Dels Baus, se afastem do registro realista.

Se não se abrir espaço para o espectador imaginar, resta a ele apenas escutar o que os atores dizem. Gostamos de criar mundos particulares frisa Climent. O teatro como espelho da realidade não nos interessa. Até porque a realidade é insuperável. Não há como competir. O teatro tem que seguir por outra vertente.

O fato de apresentarem o espetáculo há tanto tempo se constitui como um desafio. Afinal, há sempre o risco de o trabalho cristalizar, de acabar reduzido a uma sucessão de disciplinadas marcas. Uma das formas de se evitar isso é fornecida pelo acaso. Convidados para participar de diversos festivais, os atores se veem obrigados a se adaptar a condições espaciais variadas. O principal, porém, reside na obstinação de ambos.

Buscamos aliar estrutura e espontaneidade para que a montagem continue viva. Não devemos incorrer nem na dispersão, nem na rigidez destaca Molinero. Seguimos a mesma partitura, mas, às vezes, reparamos que nossas ações ficam mais violentas e outras vezes, mais ternas.

Daniel Schenker viajou a convite da organização do Festival Internacional de Londrina