Estampa contemporânea

Rodolfo Valverde, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - Com dois Grammys aos 29 anos, a violinista americana Hilary Hahn fala sobre a liberdade de escolher tudo o que grava

Em cada geração, um artista se destaca por seu virtuosismo absoluto aliado a uma profunda compreensão da música dos grandes mestres, o que resulta em interpretações que parecem finalmente trazer à tona todas as sutilezas que podem ser encontradas na partitura. Um prodígio da arte interpretativa, que nos revela algo novo com tal naturalidade, que parece mostrar que este algo a mais sempre esteve lá, apenas aguardando a sua chegada. Assim é Hilary Hahn, a fenomenal violinista americana que, com apenas 29 anos, dialoga com o seu instrumento como se este fosse a sua companhia mais íntima desde sempre.

Unanimidade da crítica internacional, Hilary que se apresenta amanhã, às 20h, na Sala Cecília Meireles, em sua primeira visita ao Brasil recebeu o Gramophone Award, a mais prestigiosa premiação da música erudita internacional, como a Artista do Ano de 2008. A comenda antecipou seu segundo Grammy pela sua última (e imbatível) gravação dos concertos para violino de Sibelius e Schoenberg, neste ano, na categoria Solista Instrumental com Orquestra, no caso a Orquestra Sinfônica da Rádio Sueca, regida pelo maestro e compositor finlandês Esa-Pekka Salonen. Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil, a instrumentista ressaltou a importância da liberdade que desfruta na hora de gravar seus discos.

Entendo que este é um processo colaborativo, mas pude escolher gravar o que queria destaca a violinista, que é artista exclusiva do mais renomado selo fonográfico mundial, o Deutsche Grammophon, pelo qual gravou seus cinco últimos álbuns.

No DVD Hilary Hahn A portrait, lançado pela Deutsche Grammophon em 2007, depoimentos, ensaios e performances atestam o carisma da instrumentista, convidada para ser a solista das comemorações dos 80 anos do papa Bento XVI, no Vaticano. Sua versatilidade lhe permite participar da trilha sonora de A vila, composta por James Newton Howard para o thriller de M.Night Shyamalan, da mesma forma como se arrisca na turnê com o cantor e compositor folk Josh Ritter. Ao abordar estilos diferentes, do barroco ao contemporâneo, a violinista se mostra confortável:

Cada peça tem suas dificuldades, cada estilo tem seus desafios. É uma questão de entendê-los e aplicá-los da melhor forma possível.

Hilary, que conquistou seu primeiro Grammy aos 21 anos, com o álbum de concertos para violino de Brahms e Stravinsky, gravado pela Sony Classical, diz não ter preferência por nenhum de seus registros.

Geralmente ouço minhas gravações quando preciso ensaiar e não tenho a orquestra disponível comenta a violinista Na minha parte, quando ouço, já sei exatamente o que vai vir.

Natural de Lexington, estado da Virgínia, Hilary Hahn fez sua primeira apresentação com uma grande orquestra aos 12 anos, a Sinfônica de Baltimore, cidade onde iniciou seus estudos antes de completar 4 anos. Aos 15, estreava na Alemanha interpretando o exigente concerto para violino de Beethoven com Lorin Maazel e, no ano seguinte, fez seu estreia no Carnegie Hall, em Nova York, com a Orquestra da Filadélfia. Aos 22, foi escolhida a melhor intérprete jovem dos EUA pela revista Time. A trajetória iniciada na infância leh conferiu mais de mil concertos em mais de 250 cidades diferentes de 30 países e todos os principais prêmios da indústria fonográfica internacional. Ávida intelectualmente, Hilary somou, à sua formação musical no Curtis Institute, aulas de literatura, línguas e drama. Um ecletismo que, sem dúvida, permite à violinista sentir a plateia e procurar a interação necessária para que a comunhão musical aconteça.

Quero que o efeito daquele momento se prolongue nos que ouvem, que signifique algo para as pessoas entende Hilary, consciente das diferenças acústicas entre um estúdio de gravação e a projeção necessária do instrumento no espaço amplo de um teatro.

Na Sala Cecília Meireles, Hilary Hahn se une à pianista ucraniana, radicada nos EUA Valentina Lisitsa, excepcional camerista e uma partner ideal por seu amplo domínio da escrita para o piano. O programa inclui obras de Brahms, Bartók, Charles Ives e Eugène Ysaÿe, o célebre violinista belga, cujo último aluno, Jascha Brodsky, foi o professor e principal artífice da carreira de Hilary.

Repertório

Eugène Ysaÿe Duas sonatas para violino, nº 4 e nº6, e a peça Rêve d'enfant dão uma amostra da obra do célebre violinista belga, cujo último aluno, Jascha Brodsky, foi o principal artífice da carreira de Hahn.

Charles Ives Três peças do compositor americano, as sonata para violino e piano nº 1, nº2 e nº 4, Children's day at the camp meeting.

J. Brahms Versão para a popular Dança húngara.

Béla Bartók Segue com as escolas nacionais com Danças folclóricas romenas para violino e piano de Bartók.