Em SP, Sisters of Mercy enfrentam armadilha da personalidade imutável

Wagner Filho, JB Online

SÃO PAULO - Em sua terceira vinda ao Brasil, o inglês The Sisters Of Mercy é a 'cult-band' de um homem só, refém de seu próprio gênio. Andrew Eldritch, londrino, 50 anos, é a voz e o espírito de seu grupo, antes tão popular quanto seus contemporâneos oitentistas New Order, Smiths e Cure. Mas ele brigou com tudo e todos ao redor, perdendo espaço na mídia, prestígio na cena e público.

Hábil no estúdio, Andrew moldou a sonoridade única de suas 'irmãs de caridade' no início dos 80's. Bateria eletrônica climática (batizada Doktor Avalanche, único parceiro remanescente), baixo sombrio contra guitarras hipnóticas, eco e efeitos esparsos. Um som ora triste, ora opressivo, solene e denso, moldura perfeita para sua voz de baixo profundo uivar e sussurrar pragas e presságios de isolamento e vingança, solidão e decepções. Um som pessoal, copiado fielmente por outras bandas em melodias, vocais, timbres, tudo: somente os Sisters Of Mercy possuem clones tão perfeitos em sua imitação.

Depois de alguns compactos históricos em selo próprio, lançou três álbuns por uma grande companhia um com cada formação, dissolvidas em litígios vários - entre 85 e 90, quando visitou o Brasil pela primeira vez. Lutando por controle artístico sobre sua obra, refez algumas faixas do início, gravou uma única música em 93 (encomenda não-incluída na trilha do filme 'O Corvo')...e nenhum lançamento desde então.

Seus ex-companheiros formaram diversas bandas e sua ex-gravadora compila e reedita seu catálogo regularmente. Andrew mantém o grupo em excursões sucessivas e intermináveis, repetindo uma fórmula barata e portátil como convém a um caça-níqueis eficiente: ao vivo, o cantor cerca-se de dois jovens guitarristas (os mesmos de sua 'tour' aqui em 2006) e um assistente para bases pré-gravadas (o enfermeiro de Doktor Avalanche). Além do ritmo, baixos, pianos, cordas e até vocais de apoio vêm destes teclados, transformando o rock gótico original em um eletro-industrial sintético.

Nesses concertos foram surgindo ótimas canções inéditas, várias já até descartadas. A cada excursão, Andrew pinça clássicos de sua fase inicial e 'hits' de seus discos (todos revestidos pela eletrônica atual), mantém algumas inéditas já aprovadas e vem com uma ou duas composições novíssimas - e lá se vão mais de 15 anos. O desgaste é visível. Os Sisters ocupam palcos cada vez menores e mais distantes, e em muitos países nem tocam mais. Sua platéia original também erra no desinteresse: o roqueiro "anos oitenta" hoje é como os hippies e fãs conservadores de rock tradicional, que o punk e o pós-punk varreram da cena. Qualquer inovação, modernização e uso de novos elementos é vista como pasteurização, ganância comercial, traição .

Em São Paulo tudo é diferente. Sábado passado, a casa Via Funchal estava quase lotada para receber o artista, passados apenas três anos de sua última vinda. Platéia variada em idade e estilos, com predominância natural do preto e roupas góticas. O coro de Sisters, Sisters surge na abertura (com a mesma 'Crash And Burn' da tour anterior) e voltará cada vez mais alto a cada intervalo. Andrew surge com uma inusitada blusa amarela e casaco hip-hop escrito St Pauli. É bom estar em casa foi sua única fala ao público, além de anunciar uma ou duas canções.

A luz do concerto é outra criação original dele. Nuvens espessas (seis máquinas de fumaça são exigidas) são vazadas por banhos de côr e feixes de contraluz, formando uma densa névoa brilhante por onde passeiam os guitarristas e o cantor, elegante em gestos esguios e cigarros sempre acesos. Carismático, seguro e autoritário em suas poses, um 'showman'.

O repertório é sem surpresas, quase o mesmo de 2006: a fase inicial (Alice, Anaconda), faixas dos álbuns (Vision Thing, First And Last And Always, Detonation Boulevard), as tais inéditas (Summer, We Are The Same Suzanne) e poucas surpresas - as obscuras Train e Marian, ambas inéditas em nossos palcos. Seu álbum favorito (Floodland, de 87) parece ser também o da platéia. Dele saem seis músicas e os momentos mais explosivos do show, como This Corrosion e Dominion/Mother Russia (com a luz emulando a antiga bandeira soviética).

No final, a instrumental Top Nite Out deixa os guitarristas sozinhos no palco em suas presepadas. Temple Of Love, marco da fase independente, encerra a noite em clima vibrante, platéia totalmente entregue, dos mais novos aos mais velhos. Noventa minutos cravados de show. Com o público sempre na mão, domínio de cena, canções poderosas e um truque ou outro na manga, Mr. Eldritch segue fazendo 'cover' de si mesmo, mantendo os ainda amados The Sisters Of Mercy no piloto automático mas em rota de colisão, a caminho do saudosismo puro e simples. Ou da obscuridade de suas brumas.