Os desafios de traduzir 'Zazie no metrô'

Alvaro Costa e Silva, JB Online

RIO - Um dos melhores romances do século 20, na avaliação insuspeita de Gullermo Cabrera Infante, Zazie no metrô, de Raymond Queneau, desembarca nas livrarias na retradução para o português de Paulo Werneck. Também editor da CosacNaify, Werneck conversa sobre a aventura de reinventar a linguagem.

Qual a maior dificuldade e o maior prazer de traduzir Zazie no metrô?

A dificuldade é se manter no fio da navalha entre erudito e coloquial, a galhofa e a literatura experimental, que é a marca maior de Zazie. Em não matar as inúmeras ambiguidades que são a graça do livro. No posfácio, Barthes comparou esse efeito ao jogo de joquempô, e é bem por aí, a ação de cada elemento depende da relação com o outro: o papel embrulha a pedra mas é cortado pela tesoura. Para quem tem gosto pelas palavras é uma delícia, pois o livro exige do tradutor e do leitor que trabalhe em todos os registros possíveis, tirando graça inclusive do choque entre os diferentes discursos.

Pode citar exemplos palavras, construção de frase que lhe deram mais trabalho e qual a solução?

Uma questão que não deu para transpor com a mesma intensidade foi a quebra da ortografia, pois ele brinca com os phs, letras dobradas ou mudas típicas do francês, língua que conserva as marcas etimológicas na grafia. O português teve a ortografia simplificada, obedecendo mais à fonética e menos à etimologia, e fica mais difícil extrair o mesmo efeito da diferença entre língua escrita e falada. Por isso, decidi brincar mais com a sintaxe, tirando o efeito coloquial da inversão de palavras, do uso de pronomes a mais ou a menos ( O papai ele tava sozinho em casa ) ou construções fora da norma. Além da sintaxe, deu para brincar também com o vocabulário. Dá gosto quando você consegue perceber que determinada palavra tem correspondência em português. Exemplos: cosquinhas , bocó , dengosa , baderna , o verbo perigar , palavras tão brasileiras, que têm o espírito do que o Queneau buscou no original, mas nem sempre são as que vêm à cabeça primeiro. Ele foi um grande registrador de palavras, tirando algumas direto das ruas para encaixar no espaço nobre do romance.

Em português do Brasil, existe algo semelhante à escrita de Queneau em termos de sonoridade e sintaxe?

Hoje a oralidade já é um valor reconhecido, embora nem sempre muito bem praticado pelos escritores brasileiros, que são melhores narradores do que autores de diálogos. Vejo pontos de contato, não propriamente semelhanças, com dois autores brasileiros que estavam escrevendo no mesmo momento. Um deles é o Nelson Rodrigues, até hoje o nosso melhor autor de diálogos, que usava as deficiências da fala como recursos positivos para caracterizar os personagens, com interrupção da frase ( Não vai me dizer que ), repetições intencionais, construções fora da norma. O outro é o Guimarães Rosa, que garimpava expressões raras, criava palavras a partir da mistura com palavras estrangeiras, brincava com os arcaísmos e neologismos.

Além do tradutor, você foi o encarregado da coordenação editorial do livro.

O principal foi ressaltar que o livro tem muitas camadas de leitura, é debochado e sério ao mesmo tempo, erudito e galhofeiro, divertido e reflexivo. Para ficar em apenas um exemplo, o papagaio Laverdure tanto é um clichê de piada, de humor popular, como é uma referência ao papagaio do Flaubert dos Três contos. Cada elemento tem uma face cômica e outra séria e uma transparece na outra. O projeto da Elaine Ramos e da Maria Carolina Sampaio, então, buscou mimetizar esse conteúdo subterrâneo que aflora na narrativa, e criaram um subterrâneo da página, pedaços de cartazes franceses que afloram pela transparência do papel. Na história, Zazie não entra literalmente no metrô, no subterrâneo da cidade, mas não fica na superfície, está sempre viajando no subterrâneo da linguagem, no subterrâneo psicológico.