'O menino de Burma' relata confronto nas selvas da Birmânia

Luiz Fernando Manso, JB Online

RIO - Em 1942, a Inglaterra ainda lutava para sobreviver no Oriente. Após a avassaladora ofensiva japonesa em 1941, pouco restava aos súditos do rei Jorge VI naquele ano. Os japoneses ameaçavam a Austrália, dominavam o Pacífico e já beiravam a fronteira da Índia, a joia da coroa, para onde as tropas inglesas haviam recuado. Finalmente, em dezembro, os ingleses lançaram a ofensiva de Arakan, que durou até maio, e foi um estrondoso fracasso.

A história dos chindits começa em fevereiro de 1942. O livro O menino de Burma, de Biyi Bandele, conta um pedacinho do que foi a guerra dos leais súditos africanos do Kingi Joji, como era chamado o rei pelos chindits, na luta contra os japoneses em 1944.

Arranhão no nariz

O autor do livro, Biyi Mandela, é filho de um menino de Burma . Cresceu ouvindo as histórias que o pai contava e, já escritor, pesquisou o assunto e entrevistou outros ex-combatentes. Embora seja um livro de ficção, O menino de Burma é um relato bastante próximo do que pode ter ocorrido nas selvas fechadas da Birmânia, hoje Mianmar, onde os garotos africanos lutaram contra os japoneses. Embora não tenham causado mais do que um arranhão no nariz dos inimigos, os chindits acabaram com o mito de invencibilidade dos orientais na selva.

Para contar a história dos meninos, Bandele segue os passos de Farabiti Banana, ou melhor, Ali Banana, nigeriano, de uma pequena aldeia do norte do país, Saminaka, que atendeu ao pedido de Kingi Joji, para lutar contra os japoneses. Outros 500 mil africanos fizeram o mesmo. A bravura da Força Real de Fronteira da África Ocidental, e dos Artilheiros Africanos do Rei, é reconhecida por ingleses, americanos, gurkas e, segundo relatórios capturados, pelos próprios japoneses.

Banana, de 14 anos, é um personagem e tanto. Longe de ser herói, como era o seu ídolo, o samanja (sargento) Damisa veterano da Gideon Force, criada pelo brigadeiro inglês Orde Wingate para lutar na Abissínia contra os italianos, e também o criador dos chindits Banana é um menino que decide se tornar homem e guerreiro, e que paga um preço alto por isso, assim como todos os seus companheiros.A luta nas selvas de Burma está entre as mais cruéis travadas na Segunda Guerra Mundial. O fanatismo japonês encontrou rivais à altura nos soldados africanos e nos gurkas, tropas nepalesas, consideradas de elite pelo Exército Britânico.

Os chindits atuavam como um exército regular. Sua missão era lutar atrás das linhas japonesas como guerrilha, causando o maior estrago possível na retaguarda japonesa. Combatendo sempre contra um inimigo mais numeroso e bem equipado, os chindits muitas vezes esperavam apenas sobreviver para lutar novamente.

Ao contar a história de Banana, Bandele consegue mostrar o horror e por que não? o humor de uma guerra sem regras, em que os africanos feridos encontrados pelos japoneses tinham a barriga rasgada e outras partes do corpo cortadas para que, vivos, fossem devorados por animais. Os diálogos entre Banana e seus companheiros de farda conseguem ser hilários, mesmo quando bombas e pedaços de gente caem a sua volta.

O menino de Burma é um belo livro sobre um front pouco conhecido, pelo menos no Brasil, da Segunda Guerra Mundial. Bandele é considerado um dos principais intelectuais africanos da atualidade. Além de escritor, também é diretor e dramaturgo. Acima de tudo é alguém que tem sensibilidade suficiente para saber que as histórias que seu pai contava e que o deixavam fascinado eram boas o suficiente para fascinar pessoas que gostam de histórias bem contadas.