Historiador inglês percorre 2 mil anos de Paris

Alvaro Costa e Silva, JB Online

RIO - Depois de atravessar as quase 600 páginas de Paris: biografia de uma cidade (Tradução de José Carlos Volcato e Henrique Guerra. L&PM. 598 páginas. R$ 94) incluindo fotos, ilustrações, mapas, glossário, guia bibliográfico, rol de prédios característicos e um chorrilho de notas e ainda sopesando o bruto, dá uma vontade louca de cantar o trecho final da marchinha de Alberto Ribeiro e Alcyr Pires Vermelho imortalizada por Carmen Miranda: Paris! Paris! Je t'aime/ Mas eu gosto muito mais do Leme . Feito o chiste cafajeste e carioca, cai-se na realidade: a capital da França é uma cidade extraordinária, e o historiador inglês Colin Jones, autor do catatau, realizou um trabalho não menos extraordinário.

E impossível, como o próprio escritor admite na introdução, ao afirmar que a história de Paris é impossivelmente rica e diversa demais para ser abarcada numa só narrativa . Mas abarcá-la é o que ele tenta fazer, tendo por inspiração um livro também extraordinário de Georges Perec.

Em 1975, Perec decidiu registrar o que acontecia numa só praça parisiense em menos de 24 horas distribuídas ao longo de três dias consecutivos de outubro. Em Tentative d'épuisement d'un lieu parisien, o escritor esclarece porque escolheu a Place Saint-Sulpice no 6º arrondissement (denominação das diferentes áreas jurisdicionais em que a capital se divide desde a Revolução Francesa) como local de sua experiência: havia lá todos os adornos de uma cidade moderna: prefeitura, escritórios, delegacia, três cafés (um deles, também tabacaria) cinema, igreja histórica e famosa, editora, funerária, agência de viagem, ponto de ônibus, alfaiate, hotel, fonte, quiosque de jornal, estacionamento, salão de beleza. Seu objetivo, no entanto, era deixar tudo isso fora do ângulo de visão e descrever o resto: O que acontece quando nada acontece além da passagem do tempo, das pessoas, dos carros e das nuvens . O texto, que se estende por 60 páginas, não poderia ser diferente: Três crianças conduzidas à escola. (...) Passa um ônibus. Pára de tocar o sino da igreja. Uma menina come metade de um bolo. Passa um ônibus 70. Passa um ônibus 63. São duas e cinco da tarde - e por aí segue.

Partindo da lição de Perec cuja microcrônica salienta a impossibilidade de contar toda a história de forma exaustiva, mesmo quando o relato se restringe a um lugar e a um dia Jones escreveu a sua biografia de Paris, na qual excluiu mais que incluiu, naturalmente não havia como fazer de outro jeito. Percorreu dois mil anos com olhar revelador para guerras, revoluções, movimentos artísticos, reformas urbanas, mas também para curiosidades dos restaurantes e catacumbas à Torre Eiffel as quais servem para antigos amantes ou visitantes de primeira viagem. Pois, como diz outra das inúmeras citações literárias que abundam no livro, esta do escritor italiano Edmondo De Amicis, Nunca vemos Paris pela primeira vez; sempre a vemos de novo .

A frase de Edmondo De Amicis sobre a impossibilidade de ver Paris pela primeira vez foi escrita no século 19, quando a cidade já estava mais que mitificada, eleita a capital europeia da modernidade, a reboque da ampla reforma urbana levada a cabo por Napoleão III e o barão Haussmann nas décadas de 1850 e 1860, cujo modelo outras cidades se esforçaram para alcançar, inclusive o Rio.

De Amicis certamente pensava no vasto conhecimento que desfrutava a literatura francesa, boa parte da qual tem como palco Paris. A cidade dos mil romances , como lembra Colin Jones citando textualmente Balzac. Em outras palavras, um visitante não poderia ver a catedral de Notre-Dame ou os esgotos da cidade sem pensar em Victor Hugo. Tampouco o cemitério de Père-Lachaise sem lembrar-se de A comédia humana.

Aliás, as epígrafes de Paris: biografia de uma cidade são quatro, todas relacionadas ao Père-Lachaise. Na primeira, da qual se originam as outras, pega-se a cena de O pai Goriot, romance de Balzac, em que o personagem Eugène de Rastignac olha para Paris do alto do cemitério e exclama: À nous deux maintenant! ( É entre nós dois, agora! ). A última é tirada dos Fragmentos de um discurso amoroso, de Roland Barthes: Do alto do Père-Lachaise, Rastignac declarou à cidade: 'À nous deux maintenant!'; eu digo a Paris: 'Adorable!' .

Como já foi dito, os escritores guiam o livro de Jones. Para Rabelais, Paris era uma cidade ruim para morrer , mas boa para viver. Montaigne declarou: Amo-a com ternura, com todas as suas imperfeições . Voltaire a considerava metade ouro, metade sujeira e Goethe, a cabeça do mundo .

No meio de uma explicação sobre a controversa origem do nome Lutécia como Paris era chamada durante o Império Romano o autor cita a hipótese de ser uma referência ao termo grego leucos, que quer dizer branco, devido à alvura dos habitantes ou porque suas casas eram feitas de argamassa branca, ou ainda, como queria a irreverência de Rabelais (muito mais citado no livro que Proust), em homenagem às coxas brancas das mulheres daquela cidade .

A exemplo de Georges Perec, outro escritor de vanguarda ganha bom espaço na biografia. Para justificar a teoria de que os parisienses muitas vezes se comportam como forasteiros em relação à própria cidade, é chamado à baila o livro Zazie no metrô, de 1959, no ano seguinte transformado em filme por Louis Malle, e que acaba de ganhar edição comemorativa em português pela CosacNaify. No romance, Raymond Queneau relata as aventuras de uma garotinha numa viagem de fim de semana a Paris. Como a Alice de Lewis Carrol, Zazie tem dificuldades de orientação, e em nada a ajudam os parisienses, que conseguem, com muito custo, reconhecer a Torre Eifell, mas sempre confundem o Panthéon com o Hotel des Invalides, ou a Sacré-Coeur, ou a Gare de Lyon.

Bem inglês, escreve Colin Jones: Talvez essa tendência à quase amnésia derive do status de forasteiro do parisiense médio. Pode também estar vinculada, em geral, ao forte provincianismo de muitos moradores urbanos. Até relativamente pouco tempo atrás, muitos moradores das margens esquerda e direita orgulhavam-se de nunca terem cruzado o Sena . O leitor brasileiro não terá o mesmo problema. Jones conta a história de Paris em ordem cronológica, e a comenta geográfica e anacronicamente. A estratégia evita a opção purista de apenas falar daquela determinada Paris do passado, sem Montmartre, que pena.