Flusser critica formas habituais de compreender as imagens técnicas

Fernando Resende*, JB Online

RIO - Vivemos em um mundo dominado pelas imagens, o que, segundo Vilém Flusser, não nos impede de tecer críticas e de aventar possibilidades de construções de diálogos com e através das imagens. No ensaio O universo das imagens técnicas: elogio da superficialidade, o filósofo afirma, de forma peremptória, que sua intenção é elogiar aqueles que, nos dias atuais, insistem em combater o tédio, ainda que possam parecer estar enganados. Pensador que se faz valer de metáforas e paradoxos para expor seu modo de ver o mundo e, com isso, exercer a crítica a partir das imagens técnicas, como ele mesmo diz, Flusser vislumbra o que talvez possa ser chamado de um projeto de comunicação dialogante . O fato de apresentar o seu pensamento como um vislumbre é para o futuro que ele lança seu olhar ressalta, antes, seu viés de uma crítica do presente, uma tarefa nada simples dada a certeza do autor de vivermos hoje sob o domínio de imagens que, apesar de construídas com pontos que se agregam para dar lugar a superfícies imaginadas, pretendem ser a substância do concreto.

Flusser se refere às fotografias, filmes, imagens de TV, de vídeo e dos computadores que, a partir de um determinado momento na história da cultura, assumem o papel de portadores de informação . Modos e lugares distintos de carregar informações revelam formas também distintas de representar e compreender o mundo. Nesse sentido, a passagem das linhas escritas para as superfícies imaginadas é significativa, pois, doravante , dirá Flusser, apenas a imagem é o concreto . Segundo se pode apreender do pensamento do autor, esta é uma perspectiva aterrorizante, pois ela contribui para que sigamos rumo a uma sociedade totalitária .

É nesta direção que sua crítica se constrói, e é com vistas ao que ele chama de sociedade telemática dialogante na qual então poderíamos falar de criadores e colecionadores de imagens que Flusser tece suas projeções. O que se apresenta como utópico, neste caso, não são os seus vislumbres, mas a ilusão da imagem como substância pura, já que é o nosso dançar cego em torno do concreto que nos faz crer que o mundo se faz pronto na superfície das imagens. Na linha do pensamento do autor, o que assume, sim, um caráter de concretude é a produção do gesto dialogante, já que para a sua realização caberia, tão-somente, ativar o que para Flusser é a descrição exata do ser humano: ser obrigado a fazer o impossível . Desse modo, duas dimensões, uma reflexiva e outra de ordem prática, abarcam o seu pensamento.

Imbuído desse espírito, seu ensaio é instigante. De forma deliberada, sua estrutura ressalta o tom do pensamento de Flusser: ele não é linear e implica reflexões, práticas e contextualizações, o que não se dá, necessariamente, nesta ordem. O ensaio se fecha quando seu autor revela que o modelo de comunicação dialógica telematizada é o que foi esboçado durante todo o livro, e que sua efetivação só lhe parece possível se enfrentarmos as duas dimensões que o ensaio aponta. Do ponto de vista reflexivo, é fundamental ressignificar o nosso modo de compreender o universo das imagens técnicas pois somente assim podemos exercer a liberdade de estar nas superfícies e de uma perspectiva prática, há que se haver com os meandros e as ações que permeiam o complexo processo de produção das imagens já que somente assim enfrentamos o (im)possível.

Com o propósito de contribuir para as ressignificações, ao encerrar o livro Flusser nos leva ao mundo da música, ampliando e complexificando o espaço em que se inscrevem as tecno-imagens. Se essas imagens, mais que representar, pretendem ser o concreto, elas também fazem parte do mundo da vontade , como o é em relação à música. As imagens técnicas, aos olhos de Flusser, fazem parte de um mundo computado ou construído, se quisermos assim pensar no qual representação e vontade convergem. Este modo de conceber o universo das imagens técnicas exige o que Flusser chama de um nível de consciência novo , pós-histórico porque experimentado de forma distinta no que se refere aos preceitos legitimados pela entrada da escrita na cultura ocidental.

No que diz respeito ao fazer, quando a meta é atingir algo substancial, a tarefa é compreender e esmiuçar as ações. Nesse sentido, abstrair, concretizar, tatear, programar, dialogar, brincar e criar são apenas alguns dos verbos, colocados assim no infinitivo, que, ao dar título aos capítulos que marcam todo o livro, exploram conceitos e problemáticas cruciais para o exercício criativo de produção das imagens técnicas. Ao atravessar os imperativos que dizem respeito à produção das imagens, cabe ao leitor saber que o homem pós-histórico este que somos nós e de quem nos fala Flusser se transforma em jogador que calcula e computa o concebido , um gesto fundante cujo conhecimento atribui sentido ao que se apresenta como primordial à perspectiva filosófica que Flusser oferece aos nossos tempos: a ideia de que o homem seja sujeito e objeto de imagens técnicas que estão envoltas em um universo que abarca tanto ele próprio quanto a máquina.

A Música de Câmera título do último capítulo, a partir do qual Flusser também sugere que comecemos o livro arremata o pensamento espiralado. Nele o leitor faz um giro e se vê fadado a voltar os olhos para o início, reconstruindo o modelo dialogante a que, a todo o momento, se refere Flusser. Nesse sentido, seu modelo aqui em forma de projeto requer que se desvele o véu que poderia assegurar às imagens o seu caráter totalitário, desmitificando tanto o nosso modo de compreender este universo quanto a nossa própria relação com as imagens que nele circulam. Neste universo em que computar é igual a compor, as falas/imagens que nele nascem não brotam de deuses, mas são construtos, objetos de homens que, muitas vezes, pelas condições históricas e culturais em que nos encontramos todos, se travestem de deuses. E assim, se cabe ao homem usar a máquina para compor e criar diálogos, é função da crítica de imagens técnicas, na atualidade, fazer desvanecer as névoas que podem nos impedir de apreender a complexidade deste universo, des-ocultando os programas por trás das imagens , como sugere o autor.

Pois é exatamente esse o gesto de Flusser ao construir o seu modelo fazendo uso da condição utópica de que a imagem seja o concreto. Se na sua superfície instala-se a ilusão da concretude, é ali que cabe a criatividade concreta , o que vem justificar, como ele próprio afirma, o elogio da superficialidade . Ao juntar pontos para, na superfície, produzir imagens, o que está em jogo é um exercício de liberdade conceito caro para o autor que não advém do ato de se opor a esta ou aquela determinação , mas da capacidade de desprezar todas as condições e de elaborar universo não-determinado . O substancial é a construção de diálogos e é na superfície que podemos nos fazer livres para agir. A tarefa não é simples, antes de tudo, por se tratar, nas palavras de Flusser, da liberdade de impor significado à vida . E é também árdua, já que exercer esta liberdade significa ir contra os tediosos, estes que, atualmente, parecem ter razão.

*Professor do Departamento de Estudos Culturais e Mídia do Programa de Pós-Graduação em Comunicação da Universidade Federal Fluminense (UFF). Autor do livro Textuações: ficção e fato no novo jornalismo de Tom Wolfe (SP: Annablume/Fapesp, 2002).