Em 'Espelho diário', artistas recriam histórias colhidas em jornais

Juliana Krapp, JB Online

RIO - A artista mineira Rosângela Rennó acaba de fazer uma nova tatuagem, no ombro esquerdo. Duas rosas medievais, espelhadas: a imagem que simboliza o brasão de uma família portuguesa, e com a qual ela se deparou quando passava uma temporada na Itália. São também as mesmas rosas gêmeas que ilustram, em desenho delicado, a capa de Espelho diário (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/ Edusp/ Editora UFMG. 480 páginas, R$ 80), título recém-lançado, após uma gestação de oito anos.

Prometi que faria uma tatuagem quando o livro finalmente fosse publicado conta Rosângela, em seu ateliê, em Santa Teresa.

De 1992 a 2000, a artista colecionou recortes de jornal nos quais aparecesse o nome Rosângela. Algum tempo depois, entregou seu diário-colagem para a poeta Alícia Duarte Penna, que criou curtos monólogos para 133 dessas mulheres retratadas nas páginas de notícias, desenvolvendo um roteiro que Rosângela a Rennó encenaria em vídeo. Nele, a artista opera a câmera tal como um espelho: diário, confessional , enquanto omite parte das referências identitárias das outras Rosângelas. Abre assim uma brecha na narrativa que faz com que se aproxime da ficção e se distancie do relato jornalístico, enquanto as associa a uma nova temporalidade: não pertencem mais ao instantâneo do jornal, mas ao arquivo singular de um suposto diário .

Permanência

Em 2001, nasceria a instalação multimídia Espelho diário, nome inspirado no tabloide sensacionalista inglês Daily Mirror. Duas telas, posicionadas frente a frente como as rosas da tatuagem projetavam os monólogos com as interpretações das diferentes Rosângelas, compondo, assim, um duplo espelho (o do vídeo e o das telas espelhadas).

A publicação que agora vem a lume traz o roteiro de Alícia, ilustrado, página a página, pelos fotogramas de Rennó. Funciona como um elemento renovado no jogo de narrativas e de temporalidades proposto durante todo o processo de Espelho diário.

O livro brinda com a permanência essas notícias do dia a dia. Não é mais a matéria do jornal, que você joga fora no dia seguinte. Nem é a vídeo-instalação, na qual, em algum momento, você desliga a TV ressalta Alícia.

Nas páginas de Espelho diário, as Rosângelas do jornal perdem seus sobrenomes e referências geográficas ou temporais. Vivem a partir de sua condição: a irmã , a missionária , a menor estuprada , a sem-teto , a mãe do menino morto , a presidente do afoxé Filhas de Oxum , a namorada de político , a noiva abandonada . São anônimas, mas nem por isso esquecíveis ou massificadas. São colecionáveis palavra tão corriqueira no vocabulário que busca dar conta da trajetória artística de Rosângela muito embora a linguagem poética com a qual são tratadas lhes devolva o tom íntimo de suas singularidades.

O trabalho da Rosângela se baseia no discurso da condição, mas não trata essa condição de uma forma massificada explica Alícia.

Como parte dessa tensão entre o individual e o coletivo, o livro traz um epílogo no qual lista o número de Rosângelas por mês, e a composição na qual aparecem. Assim, conclui que a maioria das Rosângelas habita os recortes de jornal no papel de mãe: 8,27%, seguida de perto pelas Rosângelas mortas: 6,77%; 5,26% são sequestradas, 4,50% são namoradas de notável, 3,76% são donas de casa, irmãs, presidentes, vice-presidentes ou coordenadoras de algo, colunáveis e delegadas e assim sucessivamente.

Nenhuma estatística indica, mas uma rápida passada de olhos no livro deixa claro: a maioria das histórias dessas Rosângelas é trágica (a mais marcante, para Alícia, é da mulher que foi sequestrada, no interior do Piauí, com duas sobrinhas. Todas as três foram mortas, porque a família não conseguiu juntar a quantia exigida para o resgate: R$ 30). Há, porém, narrativas mais amenas a da mãe que se surpreende com o seu bebê, um recém-nascido de mais de seis quilos, ou a da Cinderela brasileira , moradora de Olaria que se casa com um norueguês.

Interpretar essas mulheres, em texto e em imagens, não consistiu, para a dupla de artistas, uma metamorfose , mas sim uma permutação , como indica o intróito do livro. Ao tentar explicar a gama de conceitos que os pesquisadores costumam atribuir a sua obra e que envolve temas como memória e esquecimento, e a reinvenção do ato fotográfico Rosângela interrompe a fala e, decidida, simplifica:

A questão é que eu gosto é das pequenas histórias. A grande história eu deixo para os outros livros.