Eduardo Dussek fecha série em homenagem à Carmem Miranda

Tárik de Souza, Jornal do Brasil

RIO - A série de espetáculos Alô...alô?: 100 anos de Carmen Miranda, do Centro Cultural Banco do Brasil, fecha na terça com a dupla Rita Ribeiro e Eduardo Dussek um especialista na Pequena Notável.

Qual sua identificação com Carmen Miranda?

- Carmen tem a teatralidade sonora do samba brasileiro por excelência e isso me marcou demais. Quando tinha 8, 9 anos, só ouvia bossa nova, jazz e rock, que têm cadencias e sotaques bem diferentes do samba da época dela. Um dia, no MIS, vi uma exposição sobre Carmen com áudios dela cantando marchinhas e sambas. Fiquei impressionado e compus minha primeira música, a marchinha A baianinha. Daí em diante foi uma cascata de influências de Mario Reis, Ary Barroso, Braguinha. Descobri Noel, Pixinguinha, Francisco Alves, Assis Valente. Tudo influenciado por ela. Me perguntam se sou fã de Carmen. Claro, sou fã da artista, do estilo, mas na verdade, quem não larga do meu pé é ela! Ela me pegou quando eu era apenas uma criança. Foi pedofilia artística, uma pouca vergonha criativa!

Esse ecletismo, que o faz transitar do 'Rock da cachorra' a 'Folia no matagal' e 'Eu velejava em você' e a MPB retrô, não impede uma avaliação mas nítida de sua obra?

- Evidente que sim. Vai levar anos para que as pessoas possam me avaliar e ter uma ideia conjunta do que faço. Aos poucos estão entendendo e eu mesmo estou conseguindo dar uma unidade a isso tudo. Mas levou 30 anos para que eu conseguisse juntar toda essa massa, essa mistura de estilos. E talvez leve mais 30 para perceberem que o que faço não é loucura, é brasilidade. Sei que a culpa é muito minha de ter talento para várias coisas e não abrir mão de todas as possibilidades. Mas não me arrependo. E me considero um novato, fiz pouca coisa ainda...

Por que gravou pouco? Sua realização maior é no palco?

- Poderia ter gravado muito mais. Adoro gravar. Mas você precisa ter influência no meio, e eu não tenho nenhuma. Além do que, é complicado um louro gingar no samba e se dizer brasileiro. Vou pedir ao presidente Lula para criar cotas para louros na MPB. Quem sabe poderei gravar mais. Mas estou empenhado agora em registrar tudo que fiz até hoje. No palco já sou macaco velho, janto a plateia com facilidade e eles adoram ser comidos por mim. Vou gravar minhas coisas e pérolas da música que sempre amei. E tenho a sorte de minha voz estar no auge. Se curtirem, ótimo, se não curtirem, lanço uns piratas. Num meio onde não existe o menor respeito pelo direito autoral, quem espera obter respeito por sua arte?