Cassandra Wilson vai da bossa nova a clássicos do blues e do soul

Leandro Souto Maior, Jornal do Brasil

RIO - Com um Grammy embaixo do braço (que faturou na última edição da premiação pelo mais recente álbum, Loverly) e uma coleção dos maiores elogios em emblemáticas publicações como a Downbeat, a cantora Cassandra Wilson chega ao Brasil com credenciais ainda mais portentosas do que em sua primeira investida por aqui, há 15 anos, no extinto festival Free Jazz. Na ocasião, veio de última hora cobrir a ausência do cantor Mel Tormé. Desta vez, sua potente voz é a estrela em única apresentação no domingo, no Vivo Rio.

Ganhar prêmios é legal. Mas o que eu amo é a música e é sempre bom não se deixar levar por essas adulações pondera a cantora de 53 anos, em entrevista por telefone à Programa do quarto do hotel em que está hospedada, em São Paulo, por onde começou o braço brasileiro de sua turnê. Gosto muito de sentir que estou com meus pés no chão.

O repertório de Loverly que serve de base para o show vai da balada soul Till there was you (Meredith Wilson, regravada até pelos Beatles) ao pioneiro do blues Robert Johnson (Dust my broom) e desemboca na bossa nova, numa releitura de Manhã de Carnaval (Luiz Bonfá e Antonio Maria) rebatizada de A day in the life of a fool. Cassandra, que registrou a canção em 2008 ano em que se celebrava as cinco décadas da bossa sequer sabia da efeméride e espantou-se com a coincidência.

Eu não escolho as músicas que gravo. São elas que me escolhem filosofa a cantora, que já havia gravado uma versão para Águas de março em 2002. Não tinha ideia que já se passaram 50 anos do surgimento deste ritmo brasileiro. Quando me vejo cantarolando uma antiga canção assim sem mais nem menos, percebo ali um sinal para incorporá-la ao meu repertório.

E, nesse cantarolar espontâneo, já entraram no balaio de suas releituras jazzy e bluesy, além da bossa nova, o reggae de Bob Marley (Redemption song), o rock dos Beatles (Come together) e de Neil Young (Harvest moon) e até o pop de Cindy Lauper (Time after time). No premiado Loverly, houve espaço até para uma canção baseada nas sonoridades da africanas (Arere). A cantora, que também dá incertas tanto no piano quanto no violão já dedilhava os instrumentos aos 9 anos pode ser apontada como uma precursora de outras que se experimentam na mistura do jazz com outros gêneros (principalmente o pop), de Diana Krall a Norah Jones.

Lançado pelo celebrado selo Blue Note, Loverly foi definido pela crítica americana como absolutamente imperdível . À frente também da produção, Cassandra escolheu uma casa em sua Jackson natal, no Mississippi, para registrar o álbum.

Já trabalhei com grandes produtores, mas este era um trabalho tão pessoal que quis produzi-lo eu mesma.

O ambiente familiar deu o tom do CD.

É maravilhoso estar em uma atmosfera aconchegante como uma casa, em vez de um estúdio define. Estar próximo dos músicos, fazer refeições juntos, conversar... É definitivamente como receber amigos em sua própria casa. É como se você tivesse um microscópio na personalidade de cada um, o que tira a impessoalidade das gravações com hora marcada dos grandes estúdios. E eu gosto muito desse aspecto.

Cassandra Wilson desembarca no Brasil acompanhada por Jonathan Batiste (piano), Reginald Veal (baixo), Marvin Sewell (guitarra), Herlin Riley (bateria) e Lekan Babalola (percussão). Da última passagem por aqui, em 1995, manteve boas recordações.

Lembro muito bem do festival de jazz de que participei, e que foi uma experiência maravilhosa recorda. Depois, tive uns dias livres e aproveitei para conhecer a cidade de Búzios. Após o show no Rio, quero passar alguns dias na Bahia. Ouvi dizer que Salvador também é uma bela e pitoresca cidade.